Como as Big Techs estão destruindo e reconstruindo a saúde

Por Rodrigo Rocha

Existe uma cena que se repetiu pelo menos quatro vezes nos últimos quinze anos. Uma gigante de tecnologia entra no palco, promete “disrupcionar” a saúde, levanta manchetes, movimenta capital, contrata médicos em cargos sênior com salários de Silicon Valley e dois ou três anos depois encerra silenciosamente o projeto.

Google Health: 2008 a 2012. Microsoft HealthVault: 2007 a 2019. Haven, a joint venture de Amazon, Berkshire Hathaway e JPMorgan para reduzir custos de saúde corporativa: 2018 a 2021. Amazon Care, serviço de telemedicina: 2019 a 2022.

A indústria de saúde aprendeu a rir desses fracassos com uma mistura de alívio e arrogância. “Eles não entendem como isso funciona”, era o coro dos executivos de hospitais e operadoras. “Regulação, compliance, relação com o médico, cultura do paciente, isso não se aprende em Palo Alto.”

Eles estavam certos. Durante um tempo.

O que mudou é que a Big Tech parou de tentar entender saúde do jeito do Silicon Valley e começou a resolver o problema com as ferramentas que já dominava. Não estão tentando ser médicos. Estão se tornando a infraestrutura pela qual a medicina vai ter que passar.

O cemitério era o laboratório

Olhar para o cemitério de projetos e concluir que a Big Tech “falhou em saúde” é o erro analítico mais comum e mais perigoso que um executivo do setor pode cometer hoje.

O Google Health fracassou porque tentou criar um produto de consumo, um prontuário pessoal que o paciente manteria atualizado, sem entender que os dados de saúde que importam vivem nos sistemas hospitalares, não no bolso do paciente.

O Haven fracassou porque tentou resolver um problema de mercado (custo de saúde corporativa nos EUA) sem ter nem o poder de barganha, nem a infraestrutura clínica, nem a paciência regulatória para operar no longo prazo.

O Amazon Care fracassou porque era telemedicina genérica tentando competir com outros serviços de telemedicina genérica.

Cada fracasso ensinou algo específico. E as empresas que sobreviveram ao ceticismo pós-Haven aprenderam a mesma lição de jeitos diferentes: não se entra em saúde pelo produto, se entra pela infraestrutura.

O homem mais silencioso da sala

Se você fizesse uma pesquisa hoje com executivos de saúde no Brasil e perguntasse qual Big Tech representa a maior ameaça ao modelo atual, a resposta provavelmente seria Amazon ou Google. A resposta correta é Microsoft.

Em 2021, Satya Nadella disse ao anunciar a aquisição da Nuance por US$ 19,7 bilhões a terceira maior aquisição da história da Microsoft, que “IA é a maior prioridade da tecnologia, e saúde é sua aplicação mais urgente.” Naquela época, soou como discurso de relações públicas para justificar um preço de aquisição alto.

Três anos depois, parece profecia.

A Nuance já era o player dominante no mercado de ambient scribing, gravação e transcrição automática de consultas médicas, quando foi adquirida. O produto evoluiu para o DAX Copilot, que hoje está integrado ao Epic, o sistema de prontuário eletrônico mais usado dos EUA. Mais de 150 hospitais e sistemas de saúde usam o DAX Copilot integrado ao Epic para redigir notas clínicas e registrar consultas.

Os números são difíceis de ignorar. Médicos da Northwestern Medicine, que usam a ferramenta em pelo menos metade das consultas, já estão vendo mais de 11 pacientes adicionais por mês em comparação com antes da implementação do DAX Copilot. 70% dos usuários relatam redução no esgotamento profissional, e a ferramenta corta em 50% o tempo gasto em documentação clínica.

Hoje, 170 mil empresas de saúde e ciências da vida usam tecnologia da Microsoft. Mais de 600 sistemas de saúde, incluindo Mass General Brigham, Mount Sinai e Vanderbilt, adotaram o DAX Copilot nos últimos 18 meses. A Microsoft não está tentando abrir clínicas ou vender planos. Está virando o sistema nervoso dos hospitais. E quando você é o sistema nervoso, você não precisa ser mais nada.

Isso não é produto. É infraestrutura clínica. E infraestrutura não se troca.


*Rodrigo Rocha é sócio da Athlete, investidor, conselheiro e empreendedor.

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