Estudo brasileiro mostra baixa taxa de reoperação após cirurgia conservadora da mama

No tratamento de câncer de mama em estágio inicial, a cirurgia conservadora, combinada com radioterapia adjuvante, é uma estratégia associada à segurança oncológica, bons resultados estéticos e tempo reduzido para a recuperação cirúrgica, o que permite à paciente retomar mais rapidamente suas atividades. No entanto, algumas mulheres podem necessitar de uma nova cirurgia quando a retirada inicial do tumor não alcança margens consideradas adequadas. Para avaliar fatores de risco que levam à realização de nova cirurgia, um estudo feito com a participação de importantes centros de tratamento de câncer no Brasil destaca a relevância do bom planejamento cirúrgico e do acesso a equipes especializadas.

O estudo “Taxas de reoperação após cirurgia conservadora de mama em uma coorte contemporânea” foi publicado pela BMC Surgery, conceituada revista internacional dedicada a pesquisa e práticas cirúrgicas. Coordenada pela mastologista Anne Dominique Nascimento Lima, membro da Comissão Científica e do Departamento de Cirurgia da Sociedade Brasileira de Mastologia (SBM), a investigação envolveu pesquisadores de seis centros de tratamento no País, sendo cinco privados e um público.

A pesquisa avaliou 698 pacientes em estágio inicial de câncer de mama submetidas à cirurgia conservadora, seguida de radioterapia adjuvante, entre janeiro de 2016 e dezembro de 2022. “As margens cirúrgicas positivas representam um desafio. Entender quais pacientes apresentam maior risco de reoperação pode ajudar a aprimorar o planejamento cirúrgico e reduzir a necessidade de novas intervenções. Além disso, havia escassez de dados sobre as taxas de reoperação após a cirurgia conservadora da mama no País, o que torna esse levantamento especialmente relevante”, afirma Anne Dominique Lima.

Dados americanos e europeus apontam taxas de reoperação após a cirurgia conservadora de mama variando entre 20% e 30%, valores consideravelmente superiores aos observados no estudo brasileiro. Entre as participantes submetidas à quadrantectomia, a pesquisa mostra que apenas 5,2% precisaram de uma nova cirurgia. A taxa foi mais elevada no hospital público, chegando a 9,9%, enquanto nos hospitais privados, 4,8%. Para o mastologista André Mattar, tesoureiro da SBM, também participante do estudo, as ocorrências entre as instituições devem ser

interpretadas com cautela. “O hospital público oferecia atendimento oncológico a pacientes com câncer de mama dentro de um serviço estruturado de cirurgia oncológica, mas a amostragem foi menor na pesquisa”, destaca.

De acordo com o estudo, o carcinoma ductal in situ (CDIS) esteve associado a um risco aumentado de reoperação. O CDIS é considerado o estágio mais precoce do câncer de mama, com células malignas confinadas nos ductos mamários. “Por outro lado, a ausência de doença multifocal representou um risco reduzido para reoperação”, pontua a mastologista Anne Dominique Lima.

A reoperação após a cirurgia conservadora de mama representa uma série de implicações, incluindo o aumento dos custos de saúde. “Ao realizar uma nova intervenção, sabemos que existe o risco de complicações”, ressalta André Mattar. “Para a paciente, a reoperação é um sofrimento psicológico. E a possibilidade de um resultado estético não satisfatório resulta em pior qualidade de vida.”

De acordo com os pesquisadores, a baixa taxa de reoperação apresentada no estudo sugere bons resultados cirúrgicos na população estudada. Além disso, os especialistas reforçam a necessidade de investigações, ponderações clínicas rigorosas, planejamento cirúrgico eficiente e acesso ampliado das pacientes a equipes e centros especializados para a realização da cirurgia.

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