O principal avanço da ASCO 2026 não foi um medicamento
Por Sabrina Chagas
Participo da reunião anual da ASCO há quase duas décadas. Nesse período, acompanhei transformações que mudaram profundamente a oncologia. Vi o surgimento das terapias-alvo, a consolidação da imunoterapia, a incorporação da genômica à prática clínica e inúmeros avanços que ampliaram as possibilidades de tratamento para diferentes tipos de câncer.
Como oncologista, acompanho com atenção os estudos capazes de modificar condutas e oferecer novas perspectivas aos pacientes. Mas, ao longo dos anos, meu interesse também esteve voltado para outra dimensão do cuidado. A vida das pessoas que convivem com o câncer e, cada vez mais, sobrevivem a ele.
Por isso, ao retornar da ASCO 2026, o que mais me chamou atenção não foi a apresentação de uma nova droga nem a divulgação de um estudo específico. O destaque ficou por conta da consolidação de uma mudança que venho observando há algum tempo e que, nesta edição, pareceu impossível ignorar.
Todos os anos, mais de 40 mil pessoas participam daquele que é considerado o maior congresso de oncologia do mundo. Em um evento dessa magnitude, o espaço ocupado por determinados temas revela muito sobre as prioridades da especialidade.
Durante muito tempo, discussões sobre qualidade de vida, sobrevivência após o câncer, sintomas persistentes, menopausa induzida pelo tratamento, saúde cognitiva e bem-estar dos pacientes aconteciam em salas menores e reuniam grupos mais específicos de profissionais. Embora reconhecidamente relevantes, esses temas costumavam ocupar uma posição secundária diante das discussões sobre eficácia terapêutica e ganho de sobrevida.
Neste ano, a percepção foi diferente.Esses assuntos ganharam espaço nos principais auditórios e atraíram um público cada vez mais amplo. O que antes parecia um interesse restrito a profissionais particularmente envolvidos com essas questões passou a refletir uma compreensão mais abrangente do que significa cuidar de alguém com câncer.
Essa mudança talvez seja uma consequência natural do próprio sucesso da oncologia. Graças aos avanços diagnósticos e terapêuticos das últimas décadas, um número crescente de pessoas vive muitos anos após o diagnóstico. Esse cenário nos obriga a fazer novas perguntas.
Como essas pessoas estão vivendo?
Quais impactos físicos, emocionais, cognitivos e sociais permanecem após o tratamento?
Como lidar com sintomas que nem sempre aparecem nos exames, mas que afetam profundamente a rotina dos pacientes?
Outro aspecto que chamou atenção foi a participação cada vez mais ativa dos próprios pacientes. Em um congresso historicamente marcado pela apresentação de dados e análises científicas, eles não estavam apenas sendo tema das discussões. Estavam presentes nos debates, compartilhando experiências e contribuindo com perspectivas fundamentais para uma compreensão mais completa da jornada do câncer.
A oncologia continuará avançando em ritmo acelerado. Novas drogas surgirão, biomarcadores se tornarão mais precisos e a medicina personalizada seguirá ampliando as possibilidades de tratamento.
Mas há uma transformação igualmente importante em curso. Estamos começando a discutir com mais profundidade o que acontece com as pessoas depois do diagnóstico e ao longo de toda a trajetória da doença.
Isso não significa valorizar menos os avanços terapêuticos. Significa ampliar nossa compreensão sobre o que representa um resultado positivo em oncologia.
Durante muito tempo, o sucesso do tratamento foi medido principalmente pela capacidade de prolongar a vida. Essa continua sendo uma conquista fundamental. Mas, diante do aumento expressivo do número de sobreviventes de câncer, torna-se cada vez mais necessário considerar também como essas pessoas vivem após o tratamento.
A oncologia do futuro não será definida apenas pelas terapias que conseguem controlar a doença. Ela também será medida pela capacidade de preservar autonomia, bem-estar, cognição, saúde emocional e qualidade de vida.
Sobreviver continua sendo fundamental. Mas viver bem também.
*Sabrina Chagas é médica oncologista clínica da Rede D’Or e presidente do Instituto Nosso Papo Rosa.

