Autocoleta de HPV: Não é só sobre exame. É sobre acesso
Por Maria dos Anjos Neves Sampaio Chaves
O câncer do colo do útero é, hoje, uma das doenças mais preveníveis da medicina moderna. Ainda assim, ele continua afetando milhares de mulheres todos os anos — não por falta de tecnologia, mas por falhas persistentes de acesso ao rastreio. É nesse ponto que a autocoleta de HPV, que já chegou ao Brasil, deixa de ser apenas uma inovação técnica e passa a se afirmar como uma estratégia concreta de saúde pública.
Mas é fundamental explicar com clareza do que estamos falando. A autocoleta consiste na coleta vaginal realizada pela própria paciente, utilizando um material específico para detecção do HPV por biologia molecular. O exame identifica o DNA do vírus e permite a genotipagem — ou seja, a identificação dos subtipos de alto risco associados ao câncer do colo do útero. Trata-se de um teste de DNA-HPV, não de uma citologia oncótica.
Dois importantes estudos publicados recentemente corroboram esse argumento. Um deles, na The Lancet Public Health, analisou quase cinco milhões de testes de HPV realizados na Austrália entre 2017 e 2023 e mostrou que, após a ampliação dos critérios de acesso, a participação da autocoleta no rastreio saltou de pouco mais de 1% para cerca de 27% em menos de dois anos. O crescimento foi mais intenso justamente onde o sistema tradicional falha: áreas remotas, regiões socioeconomicamente desfavorecidas e faixas etárias com menor adesão histórica ao rastreio.
Mais importante: mesmo levando em conta diferenças de idade, renda, localização e histórico de exames, a eficácia clínica se manteve. As amostras coletadas pelas pacientes e aquelas coletadas por profissionais de saúde tiveram desempenho semelhante na detecção de lesões cervicais de alto grau e de câncer. Em outras palavras, ampliar o acesso não significou perder qualidade diagnóstica.
O segundo estudo, conduzido pelo MD Anderson Cancer Center e publicado no JAMA Network Open, adiciona uma camada essencial a essa discussão: o comportamento e as preferências das mulheres. A maioria ainda prefere fazer o exame com um profissional de saúde. Isso é esperado — e legítimo. Mas os dados mostram algo que não pode ser ignorado: mulheres em situação de maior vulnerabilidade social, com exames atrasados ou que já viveram experiências de discriminação no atendimento médico tendem a preferir a autocoleta em casa.
Privacidade, falta de tempo e desejo de evitar constrangimento aparecem entre os principais motivos. Esses números dizem muito mais sobre barreiras do que sobre tecnologia. Eles mostram que, para uma parte relevante da população, o problema nunca foi o exame em si, mas o caminho até ele.
No Brasil, avançamos ao incorporar o teste de autocoleta HPV no SUS, sendo feita por profissionais de saúde, em ambiente clínico. Trata-se de um avanço importante na política pública, ao incluir o teste de DNA-HPV de alto risco no programa de rastreamento. Ainda assim, é essencial esclarecer que se trata de uma estratégia complementar dentro do sistema, e não da substituição automática do modelo tradicional.
Já na rede privada, começam a surgir com mais força as opções de autocoleta, feitas em casa ou no próprio laboratório, sempre com orientação. Em ambos os casos, o exame exige processamento técnico e acompanhamento médico. A diferença central está na experiência da paciente, não na seriedade do método.
É importante reforçar que a autocoleta é um exame de rastreio molecular. Ela não substitui a citologia de Papanicolau, que continua sendo um exame complementar e ainda extremamente bem indicado conforme cada situação clínica. Tanto a citologia quanto a colposcopia seguem tendo papel essencial quando há indicação médica.
O resultado obtido com o auto teste deve sempre ser levado ao médico assistente. O exame não encerra o cuidado — ele inicia uma etapa que precisa de interpretação clínica e, quando necessário, investigação complementar.
É importante dizer com todas as letras: a autocoleta não substitui o médico, não elimina a necessidade de seguimento clínico e não encerra o cuidado. Mas ela pode ser, sim, a porta de entrada para quem hoje evita o exame ginecológico por medo, dor, desconforto ou experiências negativas anteriores.
Como ginecologista, vejo diariamente mulheres que adiam o exame por constrangimento, medo ou experiências anteriores desconfortáveis. A autocoleta pode ser o primeiro passo para quebrar esse ciclo. Ela funciona como uma estratégia de acolhimento — especialmente para quem precisa de uma alternativa inicial para retomar o cuidado.
Os próprios dados da The Lancet fazem um alerta relevante: testar é só o começo. Em alguns grupos, especialmente entre pessoas mais jovens e em regiões remotas, houve falhas no seguimento adequado após resultados positivos. Isso reforça um ponto essencial: ampliar o acesso ao rastreio precisa caminhar junto com sistemas eficientes de encaminhamento, acompanhamento e tratamento.
Como médica, reforço que cada mulher deve ser avaliada de forma individualizada — considerando sua história clínica, sua vida sexual, seus antecedentes familiares e sua faixa etária. O risco de câncer não é igual em todas as fases da vida, e a prevenção também não deve ser padronizada.
Nenhuma estratégia de rastreio substitui a consulta ginecológica regular. A visita ao médico continua sendo fundamental para exame físico, orientação e definição da melhor conduta.
Se queremos, de fato, reduzir a incidência e a mortalidade do câncer do colo do útero, precisamos parar de discutir apenas o que é ideal no papel e começar a investir no que funciona no mundo real: mais caminhos de entrada, menos barreiras e um cuidado que continue depois do teste.
*Maria dos Anjos Neves Sampaio Chaves é ginecologista do Delboni e Lavoisier.

