Risco de morte é maior após tratamento de arritmia grave em pacientes com Chagas
Um estudo conduzido por pesquisadores da Faculdade de Medicina da USP (FMUSP) faz um alerta sobre o tratamento de pacientes com doença de Chagas que sofrem de arritmias graves. A pesquisa, publicada em artigo na revista The Lancet Regional Health – Americas, demonstra que essas pessoas apresentam um risco mais elevado de mortalidade por causas diversas após a ablação por cateter quando comparado a pacientes com outras doenças cardíacas.
De acordo com o estudo, a mortalidade por fatores não cardíacos de pacientes chagásicos submetidos à ablação por cateter foi 2,41 vezes maior do que entre pacientes com cardiomiopatia isquêmica e cardiomiopatia dilatada idiopática, doenças que também podem ocasionar taquicardia ventricular. A ablação por cateter consiste em “cauterizar” os pontos do coração que geram o “curto-circuito”. Por meio de um procedimento minimamente invasivo, os cateteres são inseridos na virilha e guiados até o coração, eliminando focos elétricos anormais que causam arritmias.
“O estudo reflete que é necessário melhorar o cuidado em saúde do paciente com doença de Chagas de uma forma geral, considerando que a grande maioria dessa população é atendida no Sistema Único de Saúde (SUS)”, destaca Rodrigo Melo Kulchetscki, um dos autores do estudo e doutorando em Cardiologia pela FMUSP.

Estratégia meticulosa
O estudo revela que, na doença de Chagas, o procedimento é tecnicamente mais complexo. Uma das principais diferenças encontradas foi a necessidade de acesso ao epicárdio, a camada externa do coração, observada em 78% dos casos de pacientes chagásicos, índice significativamente superior aos 15% registrados em pacientes com cardiopatia isquêmica.
Segundo os autores do estudo, a cardiomiopatia chagásica apresenta cicatriz predominante na região externa do coração, o que exige uma estratégia mais meticulosa. A pesquisa aponta que as complicações durante o procedimento e a instabilidade clínica são os principais fatores de risco para os pacientes com a doença de Chagas.
Por outro lado, o estudo trouxe um dado alentador. A taxa de recorrência da arritmia não apresentou diferença estatística significativa entre as diferentes doenças cardíacas, o que demonstra que a técnica de ablação é eficaz em controlar o “curto-circuito” elétrico do coração, embora o prognóstico geral de sobrevivência do paciente com Chagas demande cuidados adicionais.
O estudo utilizou dados de 378 procedimentos realizados em 288 pacientes em tratamento no Instituto do Coração (Incor) do Hospital das Clínicas da FMUSP (HCFMUSP) entre 2011 e 2020. Para os pesquisadores, os achados reforçam que o tratamento da arritmia na doença de Chagas não termina na sala de cirurgia. É fundamental um acompanhamento rigoroso da insuficiência cardíaca e de outras comorbidades após a alta hospitalar. (Com informações pelo Jornal da USP)

