Quando antibióticos contaminam rios, o problema já saiu do hospital
Por Mara Machado
A confirmação da presença de uma superbactéria resistente em águas de Porto Alegre e a decisão da União Europeia de barrar novas importações de carne brasileira por questões sanitárias parecem, à primeira vista, assuntos desconectados. Mas ambos expõem o mesmo problema estrutural: o Brasil ainda falha em compreender que saúde humana, meio ambiente e produção econômica fazem parte de um mesmo sistema.
Durante muito tempo, a resistência antimicrobiana foi tratada como um problema restrito a hospitais. O imaginário coletivo associava as chamadas “superbactérias” a UTIs, ambientes críticos e pacientes graves. Esse cenário mudou. Quando bactérias resistentes passam a circular em rios, alimentos e cadeias produtivas, o problema deixa de ser apenas clínico. Ele se transforma em uma crise ambiental, sanitária e econômica.
O avanço dessa resistência não acontece por acaso. Ele é consequência direta do uso excessivo e inadequado de antibióticos na saúde humana, na pecuária e até na produção de alimentos. O que estamos fazendo há décadas é despejar pressão seletiva sobre bactérias, acelerando um processo evolutivo que favorece justamente os microrganismos mais resistentes. O resultado é previsível: medicamentos deixam de funcionar, infecções se tornam mais difíceis de tratar e riscos coletivos se ampliam.
Uma recente pesquisa conduzida pelo Instituto Qualisa de Gestão (IQG) com 104 hospitais públicos e privados do país revelou um cenário preocupante. O levantamento mostrou que 21,9% das instituições não possuem protocolos adequados para ajuste de dose de antibióticos, etapa fundamental para evitar tanto o uso excessivo quanto tratamentos ineficazes. Mais grave ainda: nenhuma das instituições avaliadas possui protocolos estruturados para descarte de antimicrobianos ou análise de efluentes hospitalares.
Isso significa que resíduos desses medicamentos continuam alcançando rios, solos e lençóis freáticos, criando ambientes ideais para a seleção de bactérias resistentes fora dos hospitais. A pesquisa também mostrou que antibióticos amplamente utilizados apresentam impacto ambiental classificado como “muito alto”, além de elevado risco de indução de resistência bacteriana.
O problema é que ainda insistimos em tratar resistência antimicrobiana como uma discussão técnica e hospitalar, quando ela já afeta cadeias produtivas, exportações, segurança alimentar e competitividade econômica. A decisão europeia envolvendo produtos brasileiros deixa claro que sustentabilidade sanitária passou a ser também um critério comercial. Países e mercados começam a exigir rastreabilidade, controle ambiental e responsabilidade sobre o uso de antimicrobianos. Quem ignorar essa agenda ficará para trás.
Existe ainda uma contradição preocupante. O Brasil possui conhecimento técnico, protocolos e diretrizes bem estabelecidas. A Organização Mundial da Saúde (OMS) fala há anos sobre a abordagem One Health, que integra saúde humana, animal e ambiental. O problema não é ausência de informação. É ausência de governança, fiscalização e prioridade política.
Enquanto isso, seguimos operando sob uma lógica fragmentada. Hospitais tratam infecções sem olhar para o impacto ambiental dos resíduos. O agronegócio discute produtividade sem integrar plenamente os riscos microbiológicos de longo prazo. E políticas ambientais seguem desconectadas das políticas de saúde pública. O resultado é um sistema que reage aos efeitos, mas evita enfrentar as causas.
A resistência antimicrobiana talvez seja um dos exemplos mais claros de como sustentabilidade deixou de ser um discurso abstrato. Ela já interfere na assistência médica, nos custos hospitalares, na segurança alimentar, nas exportações e no meio ambiente. O que está em jogo não é apenas a eficácia dos antibióticos, mas a capacidade de sustentar sistemas de saúde e modelos produtivos no longo prazo.
Se quisermos evitar que infecções comuns voltem a matar de forma rotineira, e que barreiras sanitárias internacionais se tornem cada vez mais frequentes, será necessário abandonar a ideia de que saúde ambiental e saúde humana são agendas separadas. Porque quando uma superbactéria chega aos rios, ela já não pertence mais a um hospital. Ela pertence a toda a sociedade.
*Mara Machado é CEO do IQG.

