Rastreamento do câncer de mama no SUS, avanços e acesso à mamografia

A ampliação da recomendação da mamografia a partir dos 40 anos no SUS, segundo lei do final de 2025, representa um avanço importante para a saúde da mulher. Ao mesmo tempo, segundo avaliação da Sociedade Brasileira de Mastologia (SBM) Regional São Paulo, o novo cenário amplia um desafio já conhecido. A baixa adesão histórica ao rastreamento mamográfico tende a ganhar ainda mais relevância com a inclusão de um contingente maior de mulheres na população-alvo do exame.

Esse desafio não é recente e apesar das medidas governamentais estarem sendo tomadas ainda há o que se fazer. Os últimos levantamentos disponíveis, anteriores à mudança dos parâmetros do Ministério da Saúde em setembro do ano passado, indicavam que em 2024 São Paulo registrava mais de 15 mil mulheres aguardando na fila para realizar a mamografia. Esse cenário ocorria mesmo com a existência de equipamentos no Estado em quantidade acima da média nacional, parte deles operando com ociosidade. A concentração da realização dos exames em períodos específicos do ano, como campanhas pontuais, contribui para a formação dessas filas e para a sobrecarga temporária do sistema. Dados do Atlas da Radiologia no Brasil 2025 apontam que o tempo médio de espera para a realização da mamografia no Estado de São Paulo chegou a 43 dias, prazo superior ao previsto na Lei nº 13.896/2019, que estabelece o intervalo máximo entre a consulta e a confirmação diagnóstica do câncer, evidenciando o impacto dessa dinâmica no acesso oportuno ao exame.

Com mais de 46 milhões de habitantes e cerca de 60% da população dependente do SUS, o Estado de São Paulo concentra o maior número de mamógrafos do País. São 1.523 equipamentos, dos quais 647 em uso na rede pública. Ainda assim, parte desses aparelhos opera com ociosidade, evidenciando que o principal desafio não está na quantidade de equipamentos disponíveis, mas na adesão das mulheres ao rastreamento regular.

Atualmente, apenas cerca de 30% do público-alvo realiza a mamografia conforme a recomendação. Com a ampliação da faixa etária, esse contingente de mulheres que ainda não fazem o exame tende a crescer. Entre os fatores que explicam esse cenário estão a desinformação, o medo do diagnóstico, inseguranças em relação ao procedimento e falhas na orientação ao longo da jornada de cuidado.

Para o mastologista Fábio Bagnoli, presidente da SBM Regional São Paulo, o momento exige um olhar ampliado sobre o rastreamento. “A ampliação da indicação da mamografia é positiva e vinha sendo defendida e solicitada pela Sociedade Brasileira de Mastologia há muito tempo. Trata-se de um avanço importante, que precisa vir acompanhado de estratégias contínuas de informação e conscientização. Mesmo com os progressos que vêm sendo registrados no Estado de São Paulo no cuidado com a saúde da mulher, o grande desafio é fazer com que as mulheres compreendam a importância do exame mamográfico e mantenham a regularidade ao longo dos anos”, avalia.

Outro ponto relevante é a baixa procura pela mamografia de forma regular ao longo de todo o ano. A realização do exame concentrada apenas em períodos de campanha não substitui o rastreamento contínuo, que é fundamental para a detecção precoce. A ausência de acompanhamento periódico pode atrasar o diagnóstico, já que, em poucos meses, um tumor pode apresentar crescimento ou mudanças significativas. Esperar apenas os períodos de maior mobilização compromete a efetividade da prevenção e aumenta o risco de descoberta da doença em estágios mais avançados.

Segundo o mastologista José Luis Esteves Francisco, coordenador da comissão de Imaginologia Mamária da SBM São Paulo, a mamografia permanece como a principal estratégia para reduzir a mortalidade por câncer de mama, ao permitir o diagnóstico em fases iniciais e tratamentos menos agressivos. Estudos indicam que mulheres que participam regularmente do rastreamento apresentam redução de 40% a 50% no risco de morte pela doença em até dez anos após o diagnóstico, reforçando a importância da regularidade do exame como ferramenta de prevenção.

Segundo a SBM, o índice considerado adequado seria atingir ao menos 70% de cobertura da população-alvo. “O rastreamento só é efetivo quando ocorre de forma sistemática. A mamografia realizada de forma esporádica perde parte de seu efeito protetor e aumenta o risco de diagnóstico tardio”, explica José Luis.

A entidade também chama atenção para a precisão diagnóstica. Pesquisas já divulgadas pela Sociedade Brasileira de Mastologia mostram que ainda há dificuldade, por parte de profissionais de saúde em geral, na identificação do câncer de mama, especialmente nos estágios iniciais. Essa limitação pode atrasar o diagnóstico e impactar diretamente as chances de cura.

“Isso reforça a importância do acompanhamento com o mastologista, que é o especialista na saúde da mama. Evidências mostram que o diagnóstico realizado por esse profissional tende a ser mais assertivo, principalmente nas fases iniciais da doença, quando as possibilidades de tratamento menos agressivo e de cura são maiores”, destaca Bagnoli.

O cenário também se reflete na rede privada. Embora os planos de saúde e o atendimento particular já trabalhassem historicamente com uma faixa etária de rastreamento mais ampla, conforme recomendação da SBM, problemas como desinformação, medo e falhas de orientação também afastam mulheres do exame. Como consequência, muitos diagnósticos ainda ocorrem em fases mais avançadas.

“O enfrentamento do câncer de mama passa por informação contínua, estímulo à prevenção, diagnóstico precoce e acesso a tratamento de qualidade. Esse cuidado precisa alcançar todas as mulheres, independentemente de estarem no SUS, na rede suplementar ou no atendimento particular”, conclui Bagnoli.

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