Alzheimer: quem decide quando a memória falha?

Por Nelma Melgaço

A Organização Mundial da Saúde (OMS) estima que mais de 55 milhões de pessoas vivem atualmente com demência no mundo, com cerca de 10 milhões de novos casos diagnosticados a cada ano. A demência resulta de diversas doenças e lesões cerebrais, sendo a doença de Alzheimer responsável por aproximadamente 60% a 70% dos casos. Atualmente, essa condição figura como a sétima principal causa de morte no mundo e uma das principais causas de incapacidade e dependência entre pessoas idosas. No Brasil, estima-se que cerca de 2,71 milhões de pessoas convivam com demência, havendo ainda grande número de casos não diagnosticados.

Diante da relevância do tema e de suas múltiplas implicações sociais, sanitárias e jurídicas, foi sancionada, em 2024, a Lei nº 14.878, que institui a Política Nacional de Atenção Integral às Pessoas com Doença de Alzheimer e Outras Demências. A criação dessa política reflete a crescente preocupação com o impacto da demência em diferentes dimensões da sociedade, incluindo os sistemas de saúde, as políticas públicas, o campo jurídico, a pesquisa acadêmica e a vida cotidiana das famílias.

Esse cenário se torna ainda mais significativo quando se considera o acelerado envelhecimento populacional. Globalmente, o número de pessoas com 65 anos ou mais deve mais do que dobrar, passando de 761 milhões em 2021 para cerca de 1,6 bilhão em 2050. O grupo de pessoas com 80 anos ou mais cresce em ritmo ainda mais acelerado. No Brasil, o aumento da população idosa foi de aproximadamente 57,4% em apenas 12 anos, o que contribui diretamente para a elevação do número de casos de demência.

A demência, por se tratar de uma doença crônica e progressiva, impõe profundas mudanças no estilo de vida dos indivíduos e nas estratégias de cuidado. Ao longo do curso da doença, a pessoa diagnosticada enfrenta a necessidade de tomar decisões importantes relacionadas ao tratamento, ao cuidado e à organização da própria vida. Entretanto, diferentemente de outras condições crônicas, a demência afeta diretamente a cognição, comprometendo progressivamente a capacidade de julgamento, memória e tomada de decisão. Com o avanço da doença, muitos indivíduos passam a depender de familiares ou cuidadores para decisões relativas à saúde, ao tratamento e à vida cotidiana.

Diante desse quadro, torna-se essencial refletir sobre mecanismos que permitam preservar, tanto quanto possível, a vontade, os valores e as preferências da pessoa diagnosticada com demência. Essa preocupação é central na obra “Plano de Cuidados Avançados para Pacientes com Alzheimer e Outras Demências”, de autoria de Nelma Melgaço, desenvolvida no âmbito do programa de pós-graduação em Bioética da Universidade de Brasília. O trabalho apresenta uma contribuição pioneira no contexto brasileiro ao propor uma abordagem que busca assegurar o respeito à autonomia e à dignidade das pessoas que vivem com demência.

A pesquisa explora de maneira aprofundada dois conceitos centrais: a autonomia relacional e o Plano de Cuidados Avançados. A autonomia relacional parte da compreensão de que as decisões humanas não são tomadas de forma isolada, mas se constroem no contexto das relações sociais e afetivas. Assim, a autonomia não deve ser entendida apenas como expressão de uma vontade individual livre de influências externas, mas como resultado de interações e vínculos que compõem a rede de relações da pessoa.

No contexto da demência, essa perspectiva torna-se particularmente relevante, pois reconhece que as decisões podem ser apoiadas por familiares, cuidadores e profissionais de saúde, sem que isso implique a negação da autonomia do paciente. Nesse sentido, a obra também dialoga com o conceito de tomada de decisão apoiada, destacando estratégias que permitem preservar a participação da pessoa nas decisões que dizem respeito à sua própria vida.

Outro ponto importante abordado pela autora é a natureza dinâmica da capacidade de decisão. A capacidade decisória não é estática, mas varia conforme o estágio da doença e a complexidade da decisão a ser tomada. Essa compreensão permite desenvolver abordagens mais sensíveis e individualizadas no cuidado às pessoas com demência.

Nesse contexto, o Plano de Cuidados Avançados surge como uma ferramenta fundamental. Trata-se de um processo de planejamento em que o paciente, juntamente com familiares e profissionais de saúde, pode expressar antecipadamente suas preferências e valores em relação aos cuidados futuros. Apesar de seu potencial para proteger os direitos, a autodeterminação e as preferências do paciente, essa ferramenta ainda é pouco explorada na prática clínica e no debate bioético no Brasil.

A obra também analisa experiências internacionais, especialmente do Canadá e da Austrália, países que desenvolveram políticas e programas estruturados voltados ao planejamento de cuidados avançados. No Canadá, iniciativas como as conduzidas por organizações dedicadas aos cuidados paliativos e ao planejamento antecipado de cuidados têm promovido educação, diretrizes e boas práticas. Já na Austrália, políticas nacionais, diretrizes de comunicação sobre cuidados no fim da vida e programas de apoio à tomada de decisão foram incorporados às políticas públicas de saúde e aos processos de acreditação de serviços.

Essas experiências demonstram que a implementação do Plano de Cuidados Avançados exige não apenas conscientização dos profissionais de saúde, mas também apoio institucional, desenvolvimento de políticas públicas e investimento em pesquisa. A autora destaca que a integração desse instrumento na prática clínica representa um desafio, mas também uma oportunidade de promover maior respeito aos direitos e à dignidade das pessoas com demência.

A obra, portanto, apresenta uma contribuição relevante para o campo da Bioética brasileira ao articular fundamentos teóricos, evidências empíricas, experiências internacionais e propostas práticas de implementação. Ao enfatizar o respeito à autonomia relacional e à autodeterminação, o trabalho convida profissionais de saúde, pesquisadores, gestores, familiares e a sociedade em geral a repensarem práticas e concepções sobre o cuidado às pessoas com demência.

Historicamente, indivíduos com demência foram frequentemente excluídos dos processos decisórios e vistos como incapazes de participar das decisões sobre suas próprias vidas. A mudança desse paradigma depende tanto de avanços teóricos quanto de transformações culturais e institucionais. Nesse sentido, a pesquisa de Nelma Melgaço representa um passo importante na construção de novas formas de pensar e praticar o cuidado, promovendo maior respeito à dignidade, aos direitos e à autonomia das pessoas que vivem com demência.


*Nelma Melgaço é doutoranda em Bioética e Direitos Humanos pela Universidade de Brasília (UnB) e professora de pós-graduação e integra o Observatório Direitos dos Pacientes.

Damos valor à sua privacidade

Nós e os nossos parceiros armazenamos ou acedemos a informações dos dispositivos, tais como cookies, e processamos dados pessoais, tais como identificadores exclusivos e informações padrão enviadas pelos dispositivos, para as finalidades descritas abaixo. Poderá clicar para consentir o processamento por nossa parte e pela parte dos nossos parceiros para tais finalidades. Em alternativa, poderá clicar para recusar o consentimento, ou aceder a informações mais pormenorizadas e alterar as suas preferências antes de dar consentimento. As suas preferências serão aplicadas apenas a este website.

Cookies estritamente necessários

Estes cookies são necessários para que o website funcione e não podem ser desligados nos nossos sistemas. Normalmente, eles só são configurados em resposta a ações levadas a cabo por si e que correspondem a uma solicitação de serviços, tais como definir as suas preferências de privacidade, iniciar sessão ou preencher formulários. Pode configurar o seu navegador para bloquear ou alertá-lo(a) sobre esses cookies, mas algumas partes do website não funcionarão. Estes cookies não armazenam qualquer informação pessoal identificável.

Cookies de desempenho

Estes cookies permitem-nos contar visitas e fontes de tráfego, para que possamos medir e melhorar o desempenho do nosso website. Eles ajudam-nos a saber quais são as páginas mais e menos populares e a ver como os visitantes se movimentam pelo website. Todas as informações recolhidas por estes cookies são agregadas e, por conseguinte, anónimas. Se não permitir estes cookies, não saberemos quando visitou o nosso site.

Cookies de funcionalidade

Estes cookies permitem que o site forneça uma funcionalidade e personalização melhoradas. Podem ser estabelecidos por nós ou por fornecedores externos cujos serviços adicionámos às nossas páginas. Se não permitir estes cookies algumas destas funcionalidades, ou mesmo todas, podem não atuar corretamente.

Cookies de publicidade

Estes cookies podem ser estabelecidos através do nosso site pelos nossos parceiros de publicidade. Podem ser usados por essas empresas para construir um perfil sobre os seus interesses e mostrar-lhe anúncios relevantes em outros websites. Eles não armazenam diretamente informações pessoais, mas são baseados na identificação exclusiva do seu navegador e dispositivo de internet. Se não permitir estes cookies, terá menos publicidade direcionada.

Visite as nossas páginas de Políticas de privacidade e Termos e condições.

Importante: A Medicina S/A usa cookies para personalizar conteúdo e anúncios, para melhorar sua experiência em nosso site. Ao continuar, você aceitará o uso. Veja nossa Política de Privacidade.