Alta dos medicamentos expulsa pacientes do tratamento

Por Luciana Cristina Pimentel Nunes

Olhe para a prateleira da farmácia e faça uma pergunta simples: quem ainda consegue manter um tratamento contínuo no Brasil sem comprometer o próprio orçamento? A escalada no preço dos medicamentos deixou de ser apenas uma preocupação econômica e passou a ser um problema de saúde pública. Reconheça o impacto disso desde já. Quando o custo se torna barreira, o paciente não adia apenas uma compra, ele interrompe terapias essenciais, agrava doenças crônicas e transforma condições controláveis em emergências médicas evitáveis.

Os números ajudam a dimensionar o problema. A não adesão ao tratamento por motivos financeiros cresce silenciosamente e já é reconhecida como fator relevante de piora clínica em diversos países. No Brasil, o efeito aparece de forma indireta, mas contundente. Segundo o Conselho Nacional de Justiça (CNJ), havia mais de 895 mil ações judiciais relacionadas à saúde em tramitação até dezembro de 2025, muitas delas voltadas ao acesso a medicamentos. De acordo com o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), em 2023 os medicamentos obtidos por via judicial já representavam 33% de todo o gasto público com remédios no país. Esses dados mostram que o problema não está apenas no acesso individual, mas na incapacidade estrutural de garantir continuidade terapêutica pela via regular.

Eu entendo que parte da discussão costuma se concentrar na inflação geral ou nos custos da indústria farmacêutica, mas acredito que o debate precisa ir além. O abandono do tratamento gera uma conta muito maior do que o próprio medicamento. Segundo o Ministério da Saúde, doenças crônicas como hipertensão e diabetes estão entre as principais causas de internações evitáveis no SUS, muitas vezes associadas à baixa adesão terapêutica. Quando o paciente deixa de comprar o remédio, o sistema paga depois em forma de hospitalizações, procedimentos complexos e perda de produtividade econômica. Economizar no acesso hoje significa gastar mais amanhã.

A política de medicamentos genéricos e a oferta gratuita pelo SUS são frequentemente apresentadas como pilares do acesso farmacêutico no país, mas o crescimento das ações judiciais e das interrupções terapêuticas revela um descompasso entre a política pública e a realidade do paciente. Reconheço que houve avanços importantes desde a criação dos genéricos no fim dos anos 1990, que ampliaram a concorrência e ajudaram a reduzir preços, conforme apontam estudos da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).

Ainda assim, faltas de estoque, burocracia e desigualdades regionais seguem dificultando o acesso contínuo, fazendo com que muitos pacientes permaneçam sem tratamento enquanto aguardam o fornecimento público. É justamente nesse intervalo entre a prescrição e o acesso ao medicamento que o quadro clínico frequentemente se agrava, ampliando riscos individuais e pressionando ainda mais o sistema de saúde.

Por isso, considero indispensável mudar o foco da prescrição médica e da política pública. Não basta avaliar apenas a eficácia clínica. Avalie também a viabilidade econômica do tratamento. Oriente o paciente sobre genéricos, similares e opções disponíveis no SUS. Explique riscos da interrupção terapêutica com a mesma ênfase dada aos benefícios do medicamento. Estudos internacionais publicados pela Organização Mundial da Saúde (OMS) indicam que a adesão ao tratamento pode aumentar significativamente quando o paciente compreende custos, alternativas e consequências do abandono terapêutico. Informação, nesse contexto, também é intervenção em saúde.

Se quisermos reduzir a judicialização, aliviar o orçamento público e melhorar resultados clínicos, precisamos tratar o preço do medicamento como parte central da política de saúde, não como variável secundária. Amplie o acesso, simplifique a distribuição e integre prescrição médica à realidade econômica da população. Na minha avaliação, ignorar o impacto financeiro do tratamento é aceitar que milhares de brasileiros continuem sendo excluídos silenciosamente do próprio cuidado. E um sistema de saúde só funciona de fato quando o tratamento prescrito pode ser seguido.


*Luciana Cristina Pimentel Nunes é professora, nutricionista e farmacêutica da Faculdade FASIG.

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