O Algoritmo do Cuidado: acreditação, gestão da qualidade e IA na saúde

Por Fábio Leite Gastal e Gilvane Lolato

O setor saúde vive uma mudança estrutural: o cuidado deixa de ser exclusivamente presencial e relacional para tornar-se progressivamente mediado por sistemas digitais, dados e algoritmos. Essa transformação não altera apenas a prática clínica, mas redefine a forma como a qualidade é produzida, monitorada e sustentada ao longo do tempo.

No Brasil, esse movimento é impulsionado pela Estratégia de Saúde Digital 2020–2028 e pela consolidação do SUS Digital, formalizada pela Portaria GM/MS nº 3.232/2024 do Ministério da Saúde. A expansão da Telessaúde, a interoperabilidade de sistemas e o uso crescente de Inteligência Artificial (IA) impõem às organizações o desafio de integrar prática assistencial, governança tecnológica e responsabilidade ético-legal.

Nesse contexto, a acreditação em saúde enfrenta um ponto de inflexão: permanecer como instrumento de verificação normativa ou evoluir para mecanismo estratégico de desenvolvimento organizacional. A segunda alternativa é a que responde às exigências da Saúde Digital. É a partir dela que emerge o conceito de Algoritmo do Cuidado — entendido como a lógica organizacional que articula processos, decisões, dados e aprendizagem para produzir qualidade de forma consistente.

Qualidade em ambientes digitais – O modelo clássico de qualidade de Avedis Donabedian — estrutura, processo e resultado — permanece atual, mas precisa ser reinterpretado. Estrutura passa a incluir infraestrutura tecnológica, interoperabilidade, segurança da informação e governança de dados. Processo incorpora fluxos digitais, registros eletrônicos e sistemas de apoio à decisão. Resultado abrange não apenas desfechos clínicos, mas também a experiência do paciente em ambientes mediados por tecnologia.

Com a expansão da IA, algoritmos influenciam triagens, priorizações e decisões operacionais. Parte do cuidado passa a depender de sistemas sociotécnicos. Assim, a qualidade deixa de ser apenas atributo da competência individual e passa a refletir a maturidade organizacional — isto é, a capacidade de governar riscos, integrar informações e aprender continuamente. Essa visão é consolidada na ISO 7101:2023 da International Organization for Standardization, que integra qualidade, segurança do paciente e liderança em um único referencial.

Acreditação além da conformidade – Programas de acreditação foram fundamentais para padronização e cultura de segurança. Entretanto, a World Health Organization aponta que seu impacto é maior quando integrados aos sistemas de gestão e às decisões estratégicas, e não quando tratados como eventos isolados.

Quando focada apenas na norma, a acreditação pode gerar conformidade formal sem aprendizagem institucional. Organizações se preparam para a avaliação, mas não necessariamente internalizam ciclos permanentes de melhoria.

O campo do Desenvolvimento Organizacional reforça essa análise. Edgar Schein demonstra que mudanças sustentáveis exigem transformação cultural. Chris Argyris e Donald Schön mostram que organizações evoluem quando questionam pressupostos e desenvolvem aprendizagem contínua.

Aplicada à Saúde Digital, essa abordagem implica compreender a acreditação como intervenção sistêmica, capaz de alinhar estratégia, governança, cultura e prática assistencial.

O Algoritmo do Cuidado – Em ambientes mediados por tecnologia, o cuidado não é resultado apenas da ação clínica individual. Ele emerge da forma como a organização estrutura regras, define fluxos, governa decisões, organiza dados e estabelece mecanismos de feedback. Essa arquitetura sistêmica constitui o Algoritmo do Cuidado.

Quando essa lógica é frágil — com processos desconectados, dados pouco confiáveis e governança incipiente — a tecnologia tende a amplificar riscos. Quando há maturidade em gestão e cultura de qualidade, a tecnologia potencializa segurança e eficiência.

A acreditação pode explicitar e testar essa lógica organizacional. Seus padrões definem expectativas; o método avaliativo gera feedback estruturado; e os ciclos sucessivos sustentam aprendizagem institucional.

Elemento central dessa abordagem é a triangulação avaliativa, que conecta:

• o trabalho como planejado (protocolos e diretrizes),
• o trabalho como executado (prática real e indicadores),
• e a experiência de pacientes e profissionais.

Na Saúde Digital, essa triangulação revela discrepâncias entre intenção, prática e experiência — exatamente onde surgem riscos sistêmicos e oportunidades de melhoria.

SGQ, IA e aprendizagem contínua – A principal contribuição da IA para a acreditação não está na automação da auditoria, mas na integração da avaliação ao Sistema de Gestão da Qualidade (SGQ). Quando incorporada ao cotidiano organizacional, a IA amplia a capacidade de identificar padrões, antecipar riscos e apoiar decisões baseadas em dados.

Essa lógica dialoga com o modelo da International Society for Quality in Health Care, estruturado em quatro etapas interdependentes: planejar, controlar, garantir e melhorar. Integrada a esse ciclo, a acreditação deixa de ser exigência episódica e passa a compor a arquitetura permanente de gestão.

A IA atua como suporte analítico — transformando grandes volumes de informação em insights acionáveis e reduzindo a distância entre diagnóstico e decisão. Assim, a avaliação externa ganha relevância prática e fortalece a governança organizacional.

Governança, ética e confiança – A experiência do paciente reflete a confiabilidade do sistema: continuidade do cuidado, coerência das informações, proteção de dados e previsibilidade dos fluxos. Em ambientes digitais, falhas tecnológicas tornam-se riscos assistenciais.

A World Medical Association reafirma que a mediação tecnológica não altera os princípios éticos do cuidado. No Brasil, marcos regulatórios como a LGPD e normas do Conselho Federal de Medicina (CFM) reforçam essa responsabilidade.

Qualidade, portanto, exige infraestrutura de confiança: segurança da informação, governança madura e capacidade de continuidade operacional.

Na era da Inteligência Artificial, a qualidade em saúde não será definida por quem melhor cumpre normas, mas por quem constrói organizações capazes de aprender, adaptar-se e integrar tecnologia com responsabilidade.

O Algoritmo do Cuidado sintetiza essa transformação. Ao integrar acreditação, Sistema de Gestão da Qualidade e IA, a avaliação deixa de ser instrumento de conformidade e passa a operar como sistema contínuo de aprendizagem organizacional — fortalecendo governança, segurança e experiência do paciente em um sistema de saúde cada vez mais digital.


*Fábio Leite Gastal é presidente e Gilvane Lolato é gerente geral de Operações da Organização Nacional de Acreditação (ONA).

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