Redes Sociais: quando o algoritmo ameaça a ciência
Vivemos uma era em que milhões de brasileiros buscam respostas sobre saúde nas redes sociais antes mesmo de consultar um médico. A facilidade de acesso à informação trouxe benefícios, mas também abriu espaço para um fenômeno preocupante: a substituição da evidência científica pela lógica do engajamento.
Hoje, muitos influenciadores digitais conquistam enorme credibilidade junto ao público sem qualquer compromisso com critérios técnicos. Em diversos casos, recomendações sobre medicamentos, suplementos, tratamentos e exames são apresentadas como verdades absolutas, quando, na realidade, atendem a interesses comerciais ou de autopromoção.
Não se trata de condenar as redes sociais nem de desqualificar todos os criadores de conteúdo. Há profissionais sérios que utilizam essas plataformas para promover educação em saúde de qualidade. O problema está na crescente dificuldade de o cidadão distinguir informação confiável de publicidade disfarçada de orientação médica.
Quando interesses econômicos se sobrepõem ao compromisso com a ciência, o maior prejudicado é o paciente. A promoção de tratamentos sem comprovação, a banalização de diagnósticos, a criação de falsas expectativas e o incentivo à automedicação colocam vidas em risco e corroem a confiança na Medicina baseada em evidências.
A saúde não pode ser tratada como produto de prateleira nem como ferramenta para acumular seguidores. O conhecimento médico é construído por meio de pesquisa, revisão científica e atualização permanente. Nenhum vídeo de poucos segundos substitui anos de formação, experiência clínica e responsabilidade ética.
Também é preciso discutir a responsabilidade das plataformas digitais. Algoritmos tendem a premiar conteúdos sensacionalistas, mesmo quando carecem de fundamento científico. Informações falsas ou distorcidas alcançam milhões de pessoas em poucas horas, enquanto correções técnicas raramente têm a mesma visibilidade.
Defender a liberdade de expressão não significa aceitar a disseminação de desinformação sobre saúde. A transparência em relação a conflitos de interesse deve ser regra, especialmente quando há promoção de produtos ou serviços com potencial impacto sobre decisões médicas.
Como presidente da Associação Paulista de Medicina (APM), acredito que precisamos fortalecer a educação em saúde, valorizar a informação produzida por fontes confiáveis e ampliar o combate à desinformação. O cidadão tem direito de saber quando uma recomendação decorre da melhor evidência científica disponível e quando pode estar sendo influenciada por interesses financeiros.
A confiança entre médico e paciente continua sendo um dos pilares da boa prática médica. Preservá-la exige responsabilidade de todos: profissionais, autoridades, plataformas digitais e também daqueles que exercem influência sobre milhões de brasileiros. Em saúde, credibilidade não pode ser medida pelo número de seguidores, mas pela consistência das evidências e pelo compromisso inegociável com a vida.
*Antonio José Gonçalves é presidente da Associação Paulista de Medicina e Professor Titular da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo.

