Dados apontam avanço na adesão ao tratamento de Lúpus e Fibromialgia e baixa retenção de pacientes com Alzheimer
O acompanhamento terapêutico de pacientes com doenças crônicas no Brasil está evoluindo, mas não no mesmo ritmo para todas as patologias. Dados consolidados da plataforma da Memed mostram que, entre 2022 e 2025, o tratamento de Lúpus apresentou avanço consistente na fidelização, com redução de 20 pontos percentuais na taxa de abandono. No mesmo período, o tratamento do Alzheimer registrou melhora mais gradual e ainda mantém níveis elevados de descontinuidade ao longo da jornada do paciente.
Entre janeiro de 2022 e janeiro de 2026, o volume de prescrições para Alzheimer cresceu 155% em decorrência dos novos médicos prescrevendo receitas digitais, o mesmo acontece aos cuidados relacionados ao Lúpus que registraram aumento de 455% em exames e 64,5% em medicamentos. Mais do que expansão de volume, os dados indicam avanço na adesão ao tratamento em ambiente digital, fator especialmente relevante em populações idosas, nas quais a não adesão em prescrições em papel pode ser até duas vezes maior, segundo estudo publicado na JAMA Dermatology (2017). A análise também aponta maior descentralização do cuidado, com o tratamento deixando de se concentrar apenas em centros especializados. A experiência positiva se reflete na adoção crescente da prescrição digital: novos profissionais já ingressam com padrão semelhante ao dos usuários mais experientes, indicando rápida incorporação dos protocolos na prática clínica.
Segundo Fábio Tabalipa, Diretor Médico e Head de Dados da Memed, os números revelam que o país vive dois estágios distintos de maturidade no cuidado digital de doenças crônicas. “Os dados mostram que, no Lúpus, houve ganho real de continuidade e organização do cuidado, com maior previsibilidade no acompanhamento do paciente. No Alzheimer, apesar do crescimento expressivo das prescrições, ainda enfrentamos desafios na sustentação do tratamento ao longo do tempo. Isso revela que a maturidade digital avança de forma diferente entre as patologias e que estratégias específicas são fundamentais para ampliar a adesão, especialmente em contextos mais sensíveis”, afirma.
É na jornada do paciente, porém, que a diferença entre as doenças se torna mais evidente. No tratamento do Lúpus, a taxa de abandono ou migração para papel caiu de 66,9% em 2022 para 46,4% em 2025. A adesão ideal ao tratamento, caracterizada pelo cumprimento regular do ciclo terapêutico dentro do intervalo recomendado de 90 dias, subiu de 7,1% para 12,1%. O percentual de novos pacientes na base anual também cresceu, passando de 19,6% para 29,4%, indicando renovação do acompanhamento. Quando considerados os pacientes em adesão ideal, parcial e retorno tardio, cerca de 24% permanecem ativos na plataforma, um patamar relevante para uma doença autoimune crônica que exige monitoramento contínuo.

No acompanhamento do Alzheimer, a evolução ocorreu de forma mais gradual. A taxa de abandono caiu de 70,8% para 68,5%, enquanto a adesão ideal avançou de 6,0% para 7,7%. Apesar do crescimento do volume de prescrições, o nível de retenção permanece inferior ao observado no tratamento do Lúpus, cuja adesão ideal é quase o dobro da registrada na terapia de Alzheimer.
“Parte dessa diferença está relacionada ao perfil dos pacientes. O Lúpus afeta majoritariamente adultos jovens, com maior familiaridade digital e maior engajamento com ciclos regulares de tratamento, especialmente com a hidroxicloroquina como terapia de base. O Alzheimer incide predominantemente sobre população idosa, frequentemente dependente de terceiros para gestão terapêutica, o que impacta diretamente a continuidade no ambiente digital, explica Tabalipa.
A análise das especialidades indica mudança nas portas de entrada do cuidado. No Alzheimer e no Lúpus, a Medicina de Família ganhou espaço na triagem e na manutenção do tratamento, enquanto especialidades como Neurologia, Geriatria e Reumatologia seguem concentrando os casos mais complexos. Na Fibromialgia, o movimento chama ainda mais atenção: além do aumento da intensidade de prescrição, especialidades atípicas passaram a atuar no acompanhamento. A Pediatria registrou crescimento relevante nas prescrições, embora 0% dos pacientes sejam crianças, com predominância de mulheres entre 41 e 50 anos, sugerindo que médicos com vínculo familiar possam estar funcionando como porta de entrada relacional para o manejo da dor crônica.
Se no tratamento do Lúpus o avanço está na fidelização e no acompanhamento do Alzheimer o principal desafio ainda é a retenção ao longo do tempo, na gestão terapêutica da Fibromialgia o movimento observado é distinto: há intensificação real do cuidado. Diferentemente das demais condições, houve aumento de 16% na taxa de prescrições por médico, indicando intensificação real do acompanhamento ao longo do período analisado. A condição também apresenta sazonalidade marcada, com picos entre julho e outubro, período de temperaturas mais baixas, quando se observa maior densidade de atendimento. Em 2025, pacientes entre 41 e 70 anos concentram 56,7% das prescrições, reforçando o impacto da dor crônica na população em fase produtiva e na terceira idade.
“Quando analisamos Lúpus, Alzheimer e Fibromialgia em conjunto, o que vemos não é apenas volume de prescrição, mas padrões distintos de jornada. Cada doença exige estratégias próprias de retenção, monitoramento e coordenação do cuidado. Entender essas diferenças é essencial para melhorar os desfechos clínicos e eficiência do sistema”, finaliza Tabalipa.

