SBE lança consenso sobre o tratamento da endometriose
A endometriose atinge cerca de 10% das mulheres em idade reprodutiva em todo o mundo, e aproximadamente 90% das pacientes convivem com dor pélvica. É nesse contexto que a Associação Brasileira de Endometriose e Ginecologia Minimamente Invasiva (SBE), em parceria com a Comissão Nacional Especializada em Endometriose da FEBRASGO, lançou durante o 10º Congresso Brasileiro de Cirurgia Ginecológica Minimamente Invasiva e Endometriose, em São Paulo, dois novos capítulos do Consenso Brasileiro sobre Endometriose dedicados ao tratamento clínico da dor.
As recomendações agora lançadas foram debatidas e consolidadas por especialistas durante o Congresso Brasileiro de Ginecologia e Obstetrícia (CBGO), em maio de 2026.
Mais do que reunir condutas, o documento traduz uma mudança de perspectiva: a endometriose passou a ser compreendida como uma condição inflamatória crônica e sistêmica, cujo tratamento vai além do ato cirúrgico e exige uma abordagem multidisciplinar. As recomendações estão organizadas em dois capítulos complementares.
Capítulo 1: Tratamento clínico farmacológico da dor pélvica
O consenso reafirma o tratamento hormonal como primeira linha, de caráter supressivo e não curativo, com a escolha sempre individualizada. A analgesia segue uma lógica escalonada, e novas classes de medicamentos entram no horizonte terapêutico.
Destaques:
- Contraceptivos hormonais combinados e progestagênios isolados são as opções de primeira linha, com preferência pelo uso contínuo.
- O tratamento é supressivo, não curativo; não há superioridade comprovada de uma alternativa hormonal sobre as demais.
- Não há indicação universal de tratamento para pacientes assintomáticas, a decisão deve ser individualizada.
- Agonistas de GnRH permanecem como segunda linha, sempre associados à terapia add-back para proteger a massa óssea.
- Antagonistas orais de GnRH (elagolix, linzagolix e relugolix) surgem como alternativas emergentes, ainda não disponíveis no Brasil.
- Em adolescentes, combinados ou progestagênios isolados são a primeira escolha; os análogos ficam reservados a casos refratários.
- Analgesia escalonada: paracetamol, dipirona e anti-inflamatórios não esteroides em primeira linha; opioides com uso restrito.
- Sem evidência robusta para o canabidiol e sem benefício comprovado dos implantes de gestrinona.
Capítulo 2: Tratamento clínico complementar (não farmacológico)
O segundo capítulo reconhece o papel crescente das terapias complementares, usadas por cerca de 90% das pacientes, segundo estudo internacional, e delimita, com base em evidências, quais delas trazem benefício real e em quais situações.
Destaques:
- Fisioterapia pélvica (manual ou por correntes elétricas) e acupuntura apresentam as evidências mais robustas para a redução da dor.
- Ioga demonstra benefícios na qualidade de vida.
- Intervenções psicológicas validadas: terapia cognitivo-comportamental e mindfulness, têm efeitos positivos sobre dor, ansiedade e depressão.
- Dieta mediterrânea/anti-inflamatória e dieta low-FODMAP reúnem as evidências mais consistentes, sobretudo na melhora de sintomas gastrintestinais.
- Suplementos antioxidantes (vitaminas C e E e melatonina) mostraram efeito moderado sobre a dor, com evidências ainda heterogêneas.
- São terapias adjuvantes, nunca substitutas, do tratamento hormonal ou cirúrgico estabelecido.
Cuidado individualizado e multidisciplinar
O eixo das recomendações é um modelo de cuidado centrado na paciente, individualizado, multidisciplinar e baseado nas melhores evidências disponíveis. Os dois capítulos se complementam ao reconhecer o impacto da endometriose sobre a qualidade de vida de milhões de mulheres e ao defender uma assistência mais qualificada, humana e acolhedora.


