UTI de portas abertas: um novo olhar para o cuidado intensivo
Quando pensamos em uma Unidade de Terapia Intensiva (UTI), é comum que a imagem que nos venha à mente seja a de um ambiente altamente tecnológico, reservado aos pacientes mais graves e cercado de inúmeras restrições. Durante décadas, esse modelo foi marcado por horários rígidos de visita e pela separação entre pacientes e seus familiares. Mas a medicina tem nos mostrado de forma reiterada que cuidar também é reconhecer que vínculos de afeto também fazem parte do processo terapêutico.
Recentemente, recebi um vídeo de um paciente que esteve internado na UTI do Hospital Pan-Americano, uma das unidades da Rede Total Care. Em seu relato, ele demonstrava surpresa e gratidão por poder compartilhar esse momento delicado com as pessoas que ama. Amigos e familiares puderam estar presentes em diferentes momentos do dia, oferecendo acolhimento, conforto e afeto sem precisar de hora marcada.
Seu depoimento me fez refletir sobre uma mudança importante que vem acontecendo dentro dos hospitais. Cada vez mais, compreendemos que a recuperação do paciente não depende apenas da excelência técnica das equipes assistenciais, ele também precisa ser humano.
É nesse contexto que ganha força, em diversos países, o modelo conhecido como UTI de portas abertas. A proposta rompe com a lógica da visita como um momento breve e excepcional para reconhecer que a família também pode desempenhar um papel importante durante a internação.
Por muito tempo, acreditou-se que restringir o acesso de familiares e pessoas próximas era a melhor maneira de preservar a rotina das unidades intensivas. Hoje, sabemos que essa relação é mais complexa. Estudos demonstram que políticas excessivamente restritivas podem aumentar sintomas de ansiedade, depressão e estresse pós-traumático entre familiares de pacientes internados em UTIs. Ao mesmo tempo, a presença das pessoas próximas pode trazer benefícios emocionais relevantes ao paciente.
Não se trata apenas de permitir uma visita a qualquer momento do dia, e sim de reconhecer que os vínculos pessoais também fazem parte do processo terapêutico.
A presença de alguém querido pode oferecer segurança em um momento de grande vulnerabilidade, ajudando a diminuir a sensação de isolamento provocada pela internação, a ansiedade e contribuindo para uma experiência menos traumática do período hospitalar. Em muitos casos, os familiares também oferecem informações importantes sobre hábitos, preferências e comportamentos do paciente, auxiliando as equipes a prestarem um cuidado ainda mais individualizado.
Naturalmente, esse modelo exige planejamento e responsabilidade. UTI de portas abertas não significa ausência de regras, pelo contrário, são adotados protocolos rigorosos relacionados à segurança do paciente, higiene das mãos, uso de equipamentos de proteção e critérios para acesso dos visitantes continuam sendo fundamentais.
Vivemos um momento importante na medicina. A discussão sobre cuidado centrado no paciente deixou de ser apenas um conceito teórico para se tornar uma prática cada vez mais necessária. Isso significa compreender que o paciente não é um número de prontuário, ele carrega consigo sua história, seus vínculos e as pessoas que fazem parte de sua vida.
Talvez uma das maiores transformações da saúde nos próximos anos não esteja apenas nos avanços tecnológicos, mas na nossa capacidade de tornar os hospitais lugares mais humanos. Afinal, cuidar de alguém também é permitir que ele seja cuidado por aqueles que ama.
*Anderson Nascimento é CEO da Rede Total Care, braço assistencial e hospitalar do Grupo Amil.

