A saúde deve estar no centro do debate eleitoral de 2026
Por Davi Uemoto
Em meio às discussões sobre o futuro do país, poucos temas reúnem tanta relevância social e econômica quanto a saúde. Além de representar um direito fundamental da população, o setor é um dos principais motores de desenvolvimento, geração de empregos qualificados, inovação tecnológica e fortalecimento da soberania nacional.
E, neste contexto, a indústria de dispositivos médicos desempenha um papel estratégico. São tecnologias que viabilizam a prevenção, o diagnóstico, o tratamento e a reabilitação de milhões de brasileiros diariamente. Estão presentes desde exames laboratoriais e equipamentos hospitalares até implantes, sistemas digitais, inteligência artificial aplicada à saúde e soluções conectadas que transformam a forma como os cuidados são prestados.
O Brasil possui o segundo maior mercado de dispositivos médicos das Américas (atrás apenas dos Estados Unidos), reúne milhares de empresas e gera mais de 150 mil empregos diretos. Ao mesmo tempo, enfrenta desafios importantes para ampliar sua competitividade, acelerar o acesso dos pacientes à inovação e fortalecer sua inserção no Complexo Econômico-Industrial da Saúde (CEIS).
Foi com esse propósito que a Aliança Brasileira da Indústria Inovadora em Saúde (ABIIS) elaborou o documento Desafios e Propostas 2026, uma contribuição técnica ao debate nacional e à construção de uma agenda de futuro para a saúde brasileira.
As propostas apresentadas pela entidade estão organizadas em cinco grandes eixos.
O primeiro é a modernização regulatória. Em um setor cuja inovação evolui em ciclos cada vez mais rápidos, o país precisa de um ambiente regulatório capaz de combinar segurança sanitária, previsibilidade e eficiência. Isso significa fortalecer as Boas Práticas Regulatórias, ampliar o uso de instrumentos como Avaliação de Impacto Regulatório (AIR) e Avaliação de Resultado Regulatório (ARR), reduzir redundâncias documentais e aperfeiçoar a gestão dos processos regulatórios. Uma regulação inteligente não reduz a proteção ao paciente; ao contrário, cria condições para que tecnologias seguras e eficazes cheguem mais rapidamente à população.
O segundo eixo envolve o fortalecimento institucional das agências reguladoras. Anvisa e ANS exercem funções essenciais para o funcionamento do sistema de saúde e precisam estar preparadas para acompanhar a velocidade das transformações tecnológicas. Isso exige investimento em pessoas, modernização de sistemas, digitalização de processos, uso de inteligência artificial e ampliação de mecanismos de cooperação internacional, como o reliance regulatório. Fortalecer os reguladores significa fortalecer a capacidade do Estado de responder aos desafios do presente e do futuro.
A terceira frente é o aperfeiçoamento dos processos de incorporação tecnológica. O Brasil acumulou avanços importantes nas últimas décadas, mas ainda convive com desafios relacionados à previsibilidade, velocidade de decisão e adequação metodológica, especialmente no caso dos dispositivos médicos. Tecnologias que já demonstraram benefícios clínicos e econômicos frequentemente enfrentam longos períodos até que possam ser efetivamente disponibilizadas aos pacientes. É necessário desenvolver metodologias específicas de Avaliação de Tecnologias em Saúde (ATS), ampliar o uso de evidências de mundo real e tornar os processos mais transparentes e eficientes.
O quarto eixo diz respeito ao ambiente de negócios. A implementação da reforma tributária representa uma oportunidade histórica de simplificação, mas também exige atenção para evitar insegurança jurídica, aumento de custos e impactos negativos sobre o acesso da população às tecnologias em saúde. O país precisa construir um ambiente favorável ao investimento, à inovação e à produção, garantindo estabilidade regulatória e tributária para empresas que contribuem para o desenvolvimento nacional.
Por fim, a agenda proposta pela ABIIS reforça a importância da ética, da integridade e do compliance como valores permanentes para o fortalecimento institucional do setor. Transparência, responsabilidade e compromisso com o interesse público devem continuar sendo pilares fundamentais da relação entre indústria, gestores, profissionais de saúde e sociedade.
O Brasil reúne condições para assumir uma posição de maior protagonismo na economia da saúde. Temos um mercado relevante, capacidade técnica, instituições consolidadas e um ecossistema de inovação em expansão. O desafio é criar as condições necessárias para transformar esse potencial em desenvolvimento econômico, geração de empregos, atração de investimentos e ampliação do acesso da população às melhores tecnologias disponíveis.
As eleições de 2026 representam uma oportunidade para colocar esse debate no centro das decisões nacionais. A saúde não deve ser vista apenas como uma área de gasto público, mas como um setor estratégico para o crescimento do país.
Se quisermos construir um sistema de saúde mais sustentável, eficiente e preparado para os desafios das próximas décadas, será necessário avançar simultaneamente em regulação inteligente, fortalecimento institucional, incorporação tecnológica e melhoria do ambiente de negócios. Essa é uma agenda capaz de beneficiar pacientes, profissionais de saúde, gestores e toda a sociedade brasileira. Mais do que uma pauta setorial, trata-se de uma agenda para o desenvolvimento do Brasil.
*Davi Uemoto é diretor do Conselho de Administração da Aliança da Indústria Inovadora em Saúde (ABIIS).

