Endividamento das equipes entra no radar da gestão em saúde

Não é de hoje que burnout, absenteísmo, retenção de talentos e escassez de profissionais estão entre os principais desafios enfrentados por hospitais, operadoras e demais organizações de saúde. Nos últimos anos, grande parte da discussão sobre esses indicadores esteve concentrada em fatores relacionados ao ambiente de trabalho, cultura organizacional e saúde mental. Um fator menos visível, mas que começa a chamar a atenção de gestores do setor, é o endividamento das equipes.

Uma análise realizada pelo movimento Somos+Longevos, consultoria especializada em longevidade financeira e bem-estar corporativo, identificou que 45% dos colaboradores estavam endividados e que outros 12% já viviam situação de superendividamento. O levantamento envolveu aproximadamente 1.500 colaboradores, além de 500 terceiros e 300 médicos.

O tema ganha relevância em um momento de forte expansão do e-consignado e do crédito consignado para trabalhadores da iniciativa privada. Dados do Banco Central mostram que as concessões dessa modalidade cresceram 276% em 12 meses, impulsionadas pelo programa Crédito do Trabalhador. O saldo das operações já supera R$ 100 bilhões.

O acesso ao crédito pode ser uma ferramenta importante para o planejamento financeiro. O problema surge quando empréstimos, antecipação de férias, 13º salário, benefícios, previdência privada ou outras linhas de crédito passam a ser utilizados de forma recorrente para custear despesas básicas do dia a dia.

Cada vez mais organizações convivem com profissionais que recorrem sucessivamente a diferentes modalidades de crédito para equilibrar o orçamento. Quando parte significativa da renda passa a estar comprometida por dívidas, os impactos deixam de ser apenas financeiros.

Os impactos dentro das organizações

Dentro das organizações de saúde, os reflexos começaram a aparecer em indicadores tradicionalmente acompanhados pela gestão. Crescimento do absenteísmo, aumento de afastamentos emocionais, maior procura por empréstimos consignados, pedidos frequentes de adiantamento salarial, dificuldades de concentração e queda de produtividade passaram a chamar a atenção das lideranças.

Em muitos casos, o problema se manifesta também por meio do presenteísmo, situação em que o profissional está fisicamente presente, mas encontra dificuldades para manter foco, rendimento e estabilidade emocional durante a jornada de trabalho.

Segundo Tania Machado, CEO do movimento Somos+ Longevos, o endividamento deixou de atingir apenas profissionais de menor renda e passou a atravessar diferentes níveis hierárquicos das organizações: “A questão financeira aparecia em diferentes áreas e níveis da empresa, inclusive entre profissionais altamente qualificados, médicos e lideranças. Muitas pessoas chegam emocionalmente esgotadas. A preocupação está na dívida, na cobrança e nas contas acumuladas. O colaborador está presente fisicamente, mas parte significativa da sua atenção continua consumida pelos problemas financeiros.”

O superendividamento se tornou uma questão que ultrapassa a esfera econômica e passa a impactar saúde emocional, relações familiares, desempenho profissional e qualidade de vida.

A executiva afirma que muitas organizações ainda lidam apenas com as consequências do problema, sem investigar suas origens: “Na maioria das vezes, o superendividamento não nasce da falta de renda. Ele nasce da falta de educação financeira, planejamento, orientação e consciência sobre a relação que cada pessoa desenvolve com o dinheiro ao longo da vida. Quando uma parcela significativa da renda está comprometida por dívidas, aumentam os níveis de ansiedade, a preocupação com o futuro, os conflitos familiares, o risco de depressão, os casos de burnout e outras manifestações de sofrimento emocional.”

Segundo a executiva, o endividamento continua sendo um tema pouco discutido dentro das organizações. Muitos colaboradores evitam falar sobre suas dificuldades financeiras e nem sempre os gestores conseguem identificar o problema. Os reflexos, porém, aparecem em indicadores como produtividade, absenteísmo, presenteísmo, afastamentos emocionais, utilização dos planos de saúde e dificuldades de concentração. Em sua avaliação, muitas organizações ainda tratam os efeitos sem compreender a causa.

Uma discussão que ganha espaço na gestão em saúde

A longevidade financeira tende a ganhar espaço dentro das estratégias de gestão de pessoas no setor de saúde, ao lado de iniciativas voltadas à saúde mental, qualidade de vida e prevenção do burnout.

Tania Machado afirma que a discussão está apenas começando: “Durante muito tempo as empresas olharam para ansiedade, burnout e afastamentos como questões associadas exclusivamente ao ambiente de trabalho. O que começa a ficar mais evidente é que parte desse sofrimento já chega à organização. Quando cuidamos da saúde financeira das pessoas, também estamos cuidando da sua saúde emocional, física, familiar e profissional.”

A executiva defende que a saúde financeira deve ser vista como um componente relevante das estratégias de gestão de pessoas e sustentabilidade das organizações: “Uma pergunta que as lideranças precisam começar a fazer é: quantos dos problemas de saúde, produtividade e bem-estar que a organização enfrenta hoje têm origem em dificuldades financeiras que ninguém está enxergando?”

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