HC-FMUSP realiza primeiro transplante renal pareado do Brasil
O Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP (HC-FMUSP) e a Santa Casa de Juiz de Fora realizaram o primeiro transplante renal pareado do Brasil. A modalidade, já utilizada em diversos países, permite a troca de doadores entre pares incompatíveis e representa uma nova alternativa para pacientes que contam com um doador vivo, mas não podem receber diretamente o órgão por falta de compatibilidade.
O professor Elias David Neto, diretor do Serviço de Transplante Renal do HC-FMUSP, explica que uma pessoa que necessita de um transplante de rim pode receber o órgão de um familiar, amigo ou de um doador falecido. No entanto, a espera por um órgão de doador falecido costuma ser longa e, nos casos de doação em vida, nem sempre existe compatibilidade entre doador e receptor.
Como funciona o transplante renal pareado
O transplante renal pareado permite que pacientes com um doador vivo incompatível recebam um rim por meio da troca entre pares em situação semelhante. Após a análise de compatibilidade, um doador pode doar para o receptor de outro par, enquanto seu familiar ou amigo recebe um órgão compatível de outro doador.
Dessa forma, pessoas que, em princípio, não poderiam ser transplantadas com a ajuda de seus próprios doadores passam a ter uma nova oportunidade de tratamento, sem precisar aguardar exclusivamente por um órgão proveniente de um doador falecido.

Legislação ainda limita a expansão da modalidade
Segundo Elias David Neto, a legislação brasileira está desatualizada e acaba dificultando a expansão do transplante renal pareado. De acordo com ele, a norma restringe a doação entre pessoas sem parentesco para evitar o comércio de órgãos, embora preveja algumas exceções, como nos casos envolvendo cônjuges.
Para o especialista, o aspecto mais importante é garantir que não exista qualquer interesse financeiro na doação, e não necessariamente a comprovação de vínculo familiar. Por isso, ele defende a modernização da regulamentação para ampliar o acesso a esse tipo de transplante no País.
Cooperação entre hospitais tornou o procedimento possível
Os dois hospitais compartilham uma lista de pacientes que possuem doadores vivos incompatíveis, o que permite identificar compatibilidades entre pares de diferentes instituições. Nesse primeiro transplante, foi constatado que um doador vinculado a um paciente em São Paulo era compatível com um receptor em Juiz de Fora, enquanto o doador mineiro era compatível com um paciente atendido no HC.
“O nosso doador foi a Juiz de Fora para doar o rim lá, e o doador de Juiz de Fora veio a São Paulo para doar o rim aqui. Levamos, ao mesmo tempo, os dois pares para os centros cirúrgicos e iniciamos as cirurgias simultaneamente, garantindo que os dois órgãos seriam utilizados pelos respectivos receptores. Essa coordenação é fundamental”, explica o médico.
O procedimento foi bem-sucedido e os dois pacientes receberam alta hospitalar no sexto dia após a cirurgia.
Uma alternativa para reduzir as filas de transplante
Elias David Neto defende que mais hospitais e centros transplantadores passem a integrar uma lista única de pacientes e doadores incompatíveis. Segundo ele, quanto maior o número de pares cadastrados, maiores são as chances de encontrar compatibilidades e realizar novos transplantes.
Atualmente, o projeto reúne cerca de 200 pares de doadores e receptores, mas esse número poderia crescer significativamente com a adesão de mais instituições. O especialista destaca ainda que países europeus já realizam esse tipo de cooperação em nível internacional. Para ele, embora o Brasil possua um dos programas de transplantes mais ativos do mundo, ainda é necessário superar barreiras legais e regulatórias para ampliar o uso do transplante renal pareado e beneficiar um número maior de pacientes. (Com informações do Jornal da USP)

