Por que a saúde brasileira precisa de engenheiros
Por Silvio Frison
Por décadas ouviu-se que a saúde brasileira seria melhor se contasse com mais médicos, enfermeiros, leitos, consultores e políticas públicas. Tudo isso importa, mas é hora de alertar que a saúde precisa de engenheiros. Profissionais que pensem em escala como transformar com tecnologia os bastidores da gestão hospitalar, que tratem a operação hospitalar com uma seriedade nunca recebida.
Em 2025, os hospitais privados associados à Anahp receberam de volta 17% do faturamento em glosas iniciais, um recorde. Some-se a isso o subfaturamento, entre 5% e 8% da receita perdidos com processos manuais e registros falhos, por exemplo. Onde o setor enxerga a vida como ela é, um engenheiro enxerga um sistema mal projetado.
E o desperdício mais cruel não é financeiro. Médicos preenchem formulários quando deveriam olhar nos olhos do paciente e enfermeiros viram datilógrafos de auditoria. Cada hora clínica gasta em burocracia é uma hora que não existiu para o paciente. Só um software bem projetado, dados em tempo real e IA operando de ponta a ponta devolvem o tempo que a burocracia roubou.
Os bancos descobriram que seu núcleo precisava ser tecnologia, sob pena de desaparecerem. O varejo também. Hospitais agora sabem que o seu core também é tecnologia e começam a nova jornada sob desvantagem. Analisando os 20 maiores hospitais do Brasil, a média de pessoas dedicadas à engenharia e tecnologia é de apenas 4%. Imagine os fora dos grandes centros.
Em nenhum outro setor essa desproporção é tão grande. E o custo é cobrado em vidas. Em vez de estacionar na planilha, a conta da ineficiência atravessa o pronto-socorro e chega à beira do leito.
Enquanto o mundo discute benefícios e riscos da inteligência artificial, tem gente construindo e implantando agentes de IA na operação de hospitais (especialmente no ciclo de receita) para que médicos e enfermeiros recuperem horas que hoje pertencem ao formulário.
A saúde precisa de engenheiros. Técnicos que olhem para o desperdício e enxerguem ali o problema mais urgente para resolver. A saúde brasileira não precisa só de heróis de jaleco branco. Hospitais com gestão eficiente salvam mais vidas.
*Silvio Frison é cofundador e CEO da Rivio.

