O que o FDA já sinaliza sobre o futuro dos testes sem animais
Por Bibiana Matte
Por muito tempo, acompanhei de perto como os testes em animais eram tratados como uma etapa praticamente obrigatória no desenvolvimento de medicamentos, cosméticos e novos ingredientes químicos. Mas esse cenário começa a mudar de forma acelerada. A recente movimentação do FDA (Food and Drug Administration), agência regulatória dos Estados Unidos equivalente à Anvisa no Brasil, deixa claro que o futuro da inovação em saúde e segurança de produtos será cada vez mais baseado em metodologias desenvolvidas a partir da biologia humana.
Recentemente, o FDA anunciou um plano para reduzir, refinar e substituir testes em animais no desenvolvimento de medicamentos, especialmente em categorias como anticorpos monoclonais. A proposta inclui o incentivo ao uso das chamadas New Approach Methodologies (NAMs), metodologias alternativas que utilizam culturas celulares humanas, organoides, sistemas organ-on-a-chip, inteligência artificial e modelos computacionais para avaliar segurança e eficácia de produtos.
Mais do que uma sinalização conceitual, essa mudança vem acompanhada de investimentos robustos. Em 2026, o NIH (National Institutes of Health), principal órgão de financiamento científico dos Estados Unidos, anunciou mais de US$ 150 milhões destinados à pesquisa, validação e padronização dessas tecnologias. Na prática, vejo esse movimento como a construção de uma nova lógica regulatória, científica e industrial, baseada em modelos mais preditivos para humanos.
Isso acontece porque, apesar de historicamente importantes, os modelos animais possuem limitações relevantes quando o objetivo é prever respostas humanas. Muitas moléculas consideradas seguras ou eficazes em animais falham posteriormente em estudos clínicos, gerando prejuízos financeiros, atrasos e baixa assertividade no desenvolvimento de novos produtos.
Ao mesmo tempo, os avanços em engenharia de tecidos, cultivo celular e bioinformática permitiram que a ciência passasse a reconstruir tecidos e órgãos humanos em laboratório com níveis de complexidade cada vez maiores. Hoje, já conseguimos desenvolver modelos capazes de simular funções biológicas específicas, avaliar toxicidade, absorção, inflamação e até interações sistêmicas entre tecidos humanos.
Na prática, desenvolver um produto “totalmente in vitro” significa gerar evidências de segurança, mecanismo de ação e eficácia utilizando células humanas, tecidos reconstruídos, sistemas microfluídicos e análises moleculares, sem depender de testes em animais nas etapas pré-clínicas.
Na minha visão, essa transformação não acontece apenas por pressão ética, embora esse também seja um fator importante. Existe um interesse econômico e estratégico muito claro. Metodologias sem animais permitem acelerar triagens laboratoriais, reduzir custos operacionais e aumentar a assertividade antes que um produto avance para estudos clínicos em humanos, uma das etapas mais caras e complexas da inovação em saúde.
O Brasil também começa a acompanhar esse movimento internacional. O Conselho Nacional de Controle de Experimentação Animal, (CONCEA), um órgão vinculado ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação que estabelce normas e garantem o tratamento ético e humanitário aos animais utilizados em atividades de ensino e pesquisa científica no Brasil já reconhece métodos alternativos ao uso de animais, enquanto a Anvisa passou a exigir, em diferentes contextos, testes laboratoriais sem animais para avaliações de segurança. Além disso, a Lei nº 15.183/2025 proibiu testes em animais para cosméticos, perfumes e produtos de higiene pessoal, consolidando uma tendência regulatória que deve impactar diferentes setores industriais.
Acredito que os primeiros reflexos devam ser sentidos principalmente pelas indústrias de cosméticos, higiene pessoal, ingredientes dermatológicos e químicos. Mas essa transformação tende a alcançar todo o ecossistema de pesquisa e desenvolvimento, incluindo os setores farmacêutico, biotecnológico e de novos materiais.
Apesar dos avanços, o Brasil ainda enfrenta desafios importantes para acompanhar esse novo cenário em escala. O país possui competência científica e grupos altamente qualificados em cultivo celular, engenharia tecidual e bioinformática, mas ainda precisa ampliar infraestrutura laboratorial, processos de validação, padronização técnica e aceitação regulatória.
Ao mesmo tempo, acredito que esse contexto abre espaço para que empresas nacionais assumam protagonismo tecnológico. A possibilidade de desenvolver metodologias humanizadas com tecnologia brasileira representa não apenas um avanço científico, mas também uma oportunidade estratégica para inserção internacional, atração de investimentos e fortalecimento da inovação nacional.
Para mim, o movimento liderado pelo FDA sinaliza uma mudança estrutural na forma como a ciência irá desenvolver produtos nos próximos anos. O futuro da inovação em saúde tende a ser mais humano-relevante, tecnológico, preditivo e menos dependente de modelos animais. E, diante dessa transformação global, o desafio do Brasil será acelerar sua capacidade de adaptação para não apenas acompanhar essa tendência, mas também participar ativamente da construção desse novo paradigma científico.
*Bibiana Matte é fundadora e CEO da Núcleo Vitro, doutora em Patologia Bucal e pesquisadora em biotecnologia e engenharia tecidual.

