Estudo brasileiro identifica mutação rara ligada à hipoglicemia grave

Um estudo conduzido por pesquisadores do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP (HC-FMUSP), em parceria com a UNICAMP, acaba de ampliar significativamente o conhecimento científico sobre uma causa rara e pouco reconhecida de hipoglicemia grave em pessoas sem diabetes.

Publicada neste mês na revista internacional Frontiers in Endocrinology, a pesquisa identificou 18 novos casos de mutação no gene do receptor de insulina (INSR), número que representa quase um terço de todos os casos já descritos no mundo.

Até recentemente, apenas cerca de 50 pacientes haviam sido documentados na literatura científica global. Agora, o estudo brasileiro coloca o país no centro das investigações sobre essa condição genética rara e propõe uma nova estratégia de rastreamento clínico mais acessível e “econômica” para identificar pacientes com suspeita da mutação.

A proposta dos pesquisadores é baseada na combinação de três achados clínicos: episódios de hipoglicemia, concentrações muito elevadas de insulina e cetonemia alta. Segundo os autores, essa tríade pode funcionar como um importante sinal de alerta para indicar origem genética da doença e direcionar com mais precisão quais pacientes realmente precisam realizar testes moleculares, que ainda têm custo elevado.

Crédito da imagem: www.medicinasa.com.br (proibida a reprodução sem autorização)
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“Essa tríade ajuda o médico a suspeitar da mutação e selecionar melhor quem realmente precisa de testes genéticos. Isso pode acelerar o diagnóstico e evitar anos de investigação inconclusiva”, explica o endocrinologista Ramon Marcelino, autor da pesquisa.

A hipoglicemia costuma ser associada ao diabetes, mas quando ocorre em pessoas sem a doença pode indicar condições raras e muitas vezes negligenciadas. A queda da glicose no sangue, geralmente abaixo de 55 mg/dL, pode provocar tremores, sudorese, confusão mental, perda de consciência e até risco de vida.

Entre as causas mais conhecidas estão complicações após cirurgia bariátrica, tumores produtores de insulina e doenças hepáticas ou hormonais. Agora, os pesquisadores reforçam que mutações genéticas também devem entrar no radar dos serviços de saúde.

“Existe um grupo de doenças genéticas raras que também pode explicar episódios graves de hipoglicemia e que frequentemente passa despercebido. Nosso estudo reforça a importância de olhar além das causas tradicionais”, afirma Ramon.

Mutações inéditas no gene do receptor de insulina

A investigação analisou famílias de diferentes regiões do país e identificou mutações patogênicas no gene INSR, responsável pela produção do receptor de insulina. Em alguns participantes, os pesquisadores encontraram duas variantes nunca antes descritas na literatura científica internacional.

O receptor de insulina funciona como uma espécie de “fechadura” que permite a entrada da glicose nas células. Quando essa estrutura apresenta defeitos, o organismo passa a produzir quantidades excessivas de insulina na tentativa de compensar a falha. Paradoxalmente, esse excesso provoca crises de hipoglicemia.

Outro achado que chamou atenção dos pesquisadores foi a presença persistente de cetonemia elevada, algo incomum em pacientes com níveis altos de insulina.

“Em condições normais, a insulina elevada reduz a produção de corpos cetônicos. Mas nesses pacientes a cetonemia permanece alta. Esse padrão é extremamente sugestivo de mutação no receptor de insulina”, explica o endocrinologista.

Impacto internacional

Além de ampliar a casuística mundial da doença, os achados fortalecem o papel do Brasil na produção de conhecimento sobre doenças metabólicas raras e podem contribuir para protocolos diagnósticos mais eficientes em diferentes países.

Segundo os pesquisadores, o reconhecimento precoce desses sinais clínicos pode reduzir o tempo até o diagnóstico correto e melhorar o acompanhamento dos pacientes.

“Para muitas pessoas, descobrir a causa genética das crises de hipoglicemia significa finalmente entender a própria doença e receber um acompanhamento mais adequado. É um passo importante para que essa condição deixe de ser negligenciada”, conclui Ramon.

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