Internações por ansiedade entre adolescentes crescem nove vezes

As internações por transtornos de ansiedade na saúde suplementar brasileira, conforme dados da Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS), aumentaram aproximadamente 200% entre 2015 e 2024, passando de 2,02 mil para 6,08 mil registros anuais. Um dado expressivo revela o crescimento das hospitalizações entre adolescentes, na faixa etária de 10 a 19 anos: a taxa de internação cresceu cerca de nove vezes no período, passando de 1,03 para 9,60 internações por 100 mil beneficiários de planos de saúde. O aumento foi mais intenso entre meninas.

Os dados fazem parte do estudo “Internações por Transtornos de Ansiedade na Saúde Suplementar Brasileira: Tendências Temporais Segundo Sexo e Faixa Etária”, produzido pelo Instituto de Estudos de Saúde Suplementar (IESS) a partir de informações assistenciais captadas na base de dados da Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS).

“Embora os dados sejam provenientes da saúde suplementar, dificilmente estamos diante de um fenômeno restrito aos planos de saúde. O que observamos é um sinal importante de transformação do perfil de saúde mental da população brasileira, especialmente entre adolescentes e mulheres jovens”, afirma Denizar Vianna, superintendente executivo do IESS.

Foram registradas, no total, 31,98 mil internações por transtornos de ansiedade na saúde suplementar entre 2015 e 2024. Embora adolescentes de 10 a 19 anos ainda representem menos de 12% das internações por ansiedade registradas na saúde suplementar, trata-se da faixa etária que apresentou o crescimento mais acelerado no período. O número de internações nesse grupo passou de 56 casos, em 2015, para 567, em 2024, chegando ao pico de 711 registros em 2023.

Como consequência, sua participação no total das internações aumentou de 2,8% para patamares entre 9% e 12% nos anos mais recentes. Além disso, a diferença entre os sexos tornou-se mais pronunciada ao longo da série histórica. Em 2024, foram registradas 438 internações de adolescentes do sexo feminino e 118 do sexo masculino, o equivalente a 3,7 internações femininas para cada internação masculina.

Outro indicador relevante é a evolução da média anual de internações entre meninas adolescentes. No período pré-pandêmico (2015 a 2019), a média era de 91 internações por ano. No período pós-pandêmico (2022 a 2024), esse número saltou para 453, crescimento de aproximadamente cinco vezes.

“Os resultados reforçam evidências observadas em diversos países e sugerem que estamos diante de uma mudança estrutural na demanda por cuidados relacionados à saúde mental. Quando observamos um crescimento tão expressivo nas internações, especialmente entre adolescentes, estamos falando dos casos mais graves do espectro assistencial”, destaca Denizar.

A análise mostra que o aumento das internações não pode ser explicado apenas pela expansão da população coberta por planos de saúde. Enquanto o número de beneficiários cresceu modestamente ao longo do período, as hospitalizações por ansiedade avançaram cerca de 200%.

Embora os adolescentes tenham apresentado o crescimento mais acelerado, o estudo mostra avanço das internações em todas as faixas etárias. Entre os adultos de 20 a 59 anos, responsáveis pela maior parte das hospitalizações ao longo da série histórica, a taxa de internação aumentou 2,5 vezes. Já entre os idosos, a taxa praticamente quadruplicou, indicando que o crescimento da demanda por cuidados relacionados à ansiedade não se restringe à população jovem.

O IESS entende que os resultados devem ser interpretados como um alerta para todo o sistema de saúde. Ainda que o estudo não avalie diretamente a realidade do Sistema Único de Saúde (SUS), a magnitude e a consistência do crescimento observado sugerem que a pressão sobre os serviços de saúde mental pode estar ocorrendo de forma mais ampla, alcançando diferentes segmentos da população brasileira.

Os pesquisadores destacam que as internações representam apenas a parcela mais grave dos transtornos de ansiedade. Por isso, ampliar a identificação precoce dos sinais de sofrimento psíquico, fortalecer o cuidado ambulatorial e ampliar o acesso a serviços especializados de saúde mental são desafios que extrapolam a saúde suplementar e se colocam para todo o sistema de saúde brasileiro. O avanço das internações observado no estudo sugere que a saúde mental deixou de ser uma preocupação periférica para se consolidar como uma das principais agendas assistenciais do País.

Principais resultados do estudo

  • As internações por transtornos de ansiedade passaram de 2.027 em 2015 para 6.084 em 2024;
  • Foram registradas 31.984 internações na década analisada;
  • A taxa de internação entre adolescentes cresceu cerca de nove vezes;
  • Entre meninas adolescentes, a média anual de internações aumentou de 91 para 453 casos;
  • Em 2024, houve 3,7 internações femininas para cada internação masculina entre adolescentes;
  • A taxa geral de internações por ansiedade passou de 4,10 para 11,65 por 100 mil beneficiários;
  • O crescimento das internações foi muito superior ao crescimento da população coberta por planos de saúde.

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