Ciência, envelhecimento e soberania do conhecimento

Por Jaderson Costa

O mundo atravessa uma transição geopolítica profunda. A ordem internacional que emergiu após o fim da Guerra Fria deu lugar a um cenário mais complexo, descrito pelo presidente da Finlândia e acadêmico Alexander Stubb como um mundo multipolar, competitivo e transacional. No livro The Triangle of Power: Rebalancing the New World Order (2026), ele propõe um conceito que considero especialmente relevante para a ciência e a saúde: o “realismo baseado em valores”. O poder no século XXI não se mede apenas em força militar ou econômica, mas em capacidade científica, tecnológica e institucional. Nesse contexto, países que investem em ciência produzem mais do que conhecimento; eles produzem soberania estratégica.

Poucos temas sintetizam melhor essa nova realidade do que o envelhecimento populacional. Projeções do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) indicam que, por volta de 2043, um em cada quatro brasileiros terá mais de 60 anos. Paralelamente, doenças associadas ao envelhecimento tendem a crescer de forma significativa. O Relatório Nacional sobre a Demência, publicado pelo Ministério da Saúde, estima que o número de brasileiros vivendo com Alzheimer poderá alcançar 5,7 milhões até 2050. Para além das estatísticas, esses números representam famílias, cuidadores e profissionais de saúde confrontados com doenças que ainda desafiam a Medicina.

Em um mundo multipolar, instituições de pesquisa têm papel semelhante ao que portos, estradas ou redes de energia tiveram em outras eras da economia: são infraestruturas de desenvolvimento. Elas devem colocar tecnologia, ciência e inovação a serviço da vida. Isso vale tanto para as mais antigas quanto para as mais jovens: a idade institucional é apenas um número quando confrontada com a intensidade das conquistas e com o impacto social que a ciência pode produzir.

A ciência moderna depende de sistemas colaborativos. Um dos modelos mais bem estabelecidos para explicar essa dinâmica é o conceito do tríplice hélice da inovação, no qual universidade, indústria e governo trabalham de forma coordenada para transformar conhecimento em impacto social.

Esforços coletivos impulsionam a ciência: editais nacionais, como os da da Financiadora de Estudos e Projetos (FINEP), agência pública vinculada ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação, são importantes. Somam-se a esses recursos investimentos provenientes de emendas parlamentares de diferentes esferas políticas, demonstrando que a ciência pode — e deve — ser um projeto de país.

O verdadeiro desafio do século XXI não é apenas prolongar a vida, mas garantir que ela seja vivida com dignidade, autonomia e saúde. Para isso, precisamos de ciência, universidades fortes e políticas públicas que compreendam a pesquisa como investimento de longo prazo. É o ponto de partida para construirmos um futuro que assegure, com equidade, a saúde e o bem-estar de todos.


*Jaderson Costa é Médico neurologista e Diretor do Instituto do Cérebro da PUCRS.

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