Vacinação ganha papel estratégico no tratamento contra o câncer
O avanço da desinformação sobre vacinas durante e após a pandemia de Covid-19 reacendeu um alerta sobre a queda da cobertura vacinal, que pode representar um risco ainda maior para populações vulneráveis, como pacientes com câncer. Dados mais recentes do Anuário Vacina BR mostram que, até 2023, cerca de 80% da população brasileira vivia em municípios que não atingiram as metas de cobertura para a maioria das vacinas previstas no calendário nacional.
Para pacientes oncológicos, esse cenário é preocupante, já que a proteção contra doenças infecciosas depende não apenas da imunização individual, mas, também, da cobertura vacinal de familiares, cuidadores e pessoas próximas. O hematologista e líder nacional em Infecção em Câncer e Terapia Celular da Oncoclínicas, Marcio Nucci, chama atenção dessa estratégia que ajuda a criar uma rede de proteção ao redor do paciente imunossuprimido, reduzindo o risco de transmissão de doenças em um momento de maior fragilidade do organismo.
Diretrizes internacionais da American Society of Clinical Oncology (ASCO) destacam que a atualização do esquema vacinal reduz o risco de infecções e favorece a continuidade das terapias oncológicas. “A recomendação é que a imunização seja planejada logo após o diagnóstico e, sempre que possível, antes do início de tratamentos imunossupressores, quando o organismo ainda apresenta melhores condições de resposta às vacinas. Essa proteção é importante para reduzir complicações infecciosas e evitar interrupções que possam comprometer o tratamento do câncer”, ressalta Nucci.
No entanto, algumas vacinas com vírus vivo atenuado, como sarampo, febre amarela e dengue, podem ser contraindicadas para pacientes imunossuprimidos, salvo em situações específicas e sob avaliação médica. Já entre as principais vacinas recomendadas para esse público estão as de pneumococo, influenza, Covid-19, herpes-zóster, meningococo, hepatites A e B, tétano e difteria, além da vacina contra o vírus sincicial respiratório (VSR), importante na prevenção de quadros respiratórios graves.
“Quando falamos em tratamento oncológico, muitas pessoas pensam apenas em etapas como cirurgia, quimioterapia ou imunoterapia, mas a prevenção de infecções também é essencial nessa jornada. O paciente com câncer frequentemente passa por períodos de maior fragilidade imunológica e, nesse contexto, a vacinação ajuda a reduzir riscos que podem levar a internações e piora clínica. Por isso, o calendário vacinal deixa de ser visto como um cuidado secundário e passa a integrar de forma mais estruturada à rotina do acompanhamento oncológico tanto de quem está em tratamento quanto de quem está no seu dia a dia”, afirma o hematologista.
Além da imunização, medidas complementares como o uso de máscara em ambientes de maior risco e cuidados para evitar exposição a agentes infecciosos seguem recomendadas para pacientes imunossuprimidos.
Pesquisas avançam no desenvolvimento de vacinas contra diferentes tipos de câncer
A vacinação já desempenha um papel importante na prevenção de alguns tipos de câncer. Imunizantes contra HPV e hepatite B, por exemplo, contribuem para reduzir o risco de tumores associados a esses vírus e são considerados importantes ferramentas de saúde pública. Paralelamente, pesquisadores ao redor do mundo avançam no desenvolvimento de vacinas com potencial preventivo e terapêutico contra diferentes tipos de câncer.
“A vacinação, além de ser uma barreira preventiva, como já vemos ocorrer com o HPV e a hepatite B, deve se tornar um dos caminhos da medicina de precisão contra o câncer. O que a ciência está desenhando agora é uma virada de chave histórica, ao usar vacinas para ensinar o próprio corpo a rastrear e destruir tumores. É um salto que vai redefinir a oncologia nos próximos anos”, complementa Marcio Nucci.

