Acesso à saúde ainda afasta pessoas trans do Sistema Único de Saúde

Maio, mês marcado pela luta contra a LGBTfobia, reforça a importância do debate sobre acesso digno à saúde para pessoas trans no Brasil. Dados do Dossiê ANTRA (Associação Nacional de Travestis e Transexuais) de 2024 apontam que a violência institucional e a exclusão social seguem impactando diretamente a qualidade de vida dessa população, cuja expectativa de vida gira em torno de 35 anos. Entre os fatores que contribuem para esse cenário está o afastamento das Unidades Básicas de Saúde (UBS) e hospitais, motivado pelo medo de discriminação, exposição e desrespeito durante o atendimento.

Embora normas do Sistema Único de Saúde (SUS) já permitam a realização de exames independentemente do gênero registrado em documentos, a implementação dessas diretrizes ainda é desigual no país. Na prática, muitas pessoas trans recorrem ao sistema de saúde apenas em situações extremas, deixando de realizar consultas preventivas e acompanhamentos contínuos.

“Existe uma apreensão constante sobre o que pode acontecer, seja receber um tratamento inadequado ou o medo da exposição do nome de registro. Dependendo da especialidade médica, a tensão fica ainda maior”, explica Zulai Ayo Silva, homem trans, usuário do SUS e colaborador da SAS Brasil.

A discriminação institucional também se manifesta na falta de preparo clínico e acolhimento adequado. Segundo Zulai, mesmo quando há respeito individual por parte dos profissionais, frequentemente o paciente é colocado na posição de explicar questões relacionadas à transgeneridade durante a própria consulta.

“Na maioria das vezes em que fui atendido, percebi que a falta de compreensão sobre transgeneridade me colocou no lugar de responsável pelo ‘letramento de gênero’ dos profissionais. Deveria ser um momento de receber cuidado, não de dar explicações”, relata.

As experiências negativas geram um efeito em cadeia que empurra parte da população trans para a informalidade nos cuidados médicos. Sem acompanhamento profissional adequado, a automedicação e o uso de hormônios por conta própria tornam-se alternativas recorrentes.

“Diante desses obstáculos, muitas pessoas trans recorrem ao tratamento hormonal sem acompanhamento médico. Eu mesmo já passei por isso. Interrompi por receio dos riscos à saúde, mas muitas pessoas continuam porque faltam alternativas, informação e acolhimento dentro do próprio sistema”, afirma Zulai.

Esta vivência pessoal dialoga com a atuação da SAS Brasil, organização social que trabalha para ampliar o acesso à saúde especializada em regiões remotas e vulneráveis do país. Desde 2013, a instituição atua em parceria com o SUS em iniciativas de atendimento, telessaúde, capacitação de profissionais e implementação de linhas de cuidado em municípios com baixa infraestrutura médica.

Para a CEO e cofundadora da SAS Brasil, Sabine Zink, discutir saúde da população trans é também discutir equidade no acesso ao cuidado. “A saúde precisa ser um espaço seguro para todas as pessoas. Na SAS Brasil, trabalhamos diariamente para levar atendimento a populações historicamente afastadas do sistema de saúde, especialmente em regiões remotas e com pouca infraestrutura. Falar de inclusão na saúde é garantir que ninguém deixe de buscar atendimento por medo de sofrer preconceito, constrangimento ou invisibilidade”, afirma.

O cenário, que já é desafiador nos grandes centros urbanos, torna-se ainda mais crítico no interior do país. O Processo Transexualizador do SUS — rede de ambulatórios especializados para atendimento à população trans — ainda apresenta forte concentração nas capitais das regiões Sul e Sudeste, segundo o Ministério da Saúde. A ausência de serviços especializados e a falta de capacitação das equipes locais fazem com que o direito básico à saúde continue sendo, para muitas pessoas trans, um privilégio geográfico.

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