Educação de Precisão em Saúde: o próximo passo do cuidado
Por Eduardo Senise
Recentemente, uma pessoa próxima passou por uma situação que me fez pensar com ainda mais cuidado sobre o sentido da Educação de Precisão em saúde. Diante de seu quadro grave e do sofrimento, ela preferiu voltar para casa e iniciar cuidados paliativos, em vez de seguir com os remédios e as internações. Um momento de transição humana, em que a autonomia do indivíduo, o tempo, a família e o modo como a informação foi compreendida passaram a ter o mesmo peso que toda a conduta.
Definitivamente, hoje o paciente é muito diferente, chega mais informado, conectado, com acesso ao próprio histórico e com novas formas de interpretar o que escuta. No Brasil, o IBGE mostra que a Internet já está presente em quase 100% dos domicílios e seu uso é massivo em toda a população. Já o Ministério da Saúde estruturou o Meu SUS Digital para ampliar o acesso do cidadão ao seu próprio percurso no sistema. Isso muda a relação entre paciente e serviço. O paciente compara, questiona, lê, volta com dúvidas e, em muitos casos, já chega mediado por ferramentas digitais e por IA.
Talvez por isso a Organização Mundial da Saúde estuda o que se chama de letramento em saúde: a capacidade de acessar, entender, avaliar e usar informação e, simultaneamente, reforce que os sistemas de saúde precisam responder às necessidades, preferências e valores dos indivíduos, e não apenas à lógica interna das instituições. Afinal, se um paciente recusa um tratamento, ele não está, necessariamente, recusando o cuidado.
É aqui que eu enxergo a Educação de Precisão como algo especialmente útil: a busca por um sistema para entender, orientar e acompanhar melhor, ao buscar o uso de dados e tecnologia para personalizar aprendizagem, melhorar a eficiência e aumentar a agência de quem aprende, conectando inputs, insights, intervenções e resultados em ciclos contínuos.
Por exemplo, a recusa terapêutica em paciente maior, capaz, lúcido, orientado e consciente é tema reconhecido pelo CFM, desde que ele seja informado sobre riscos e consequências e, se possível, sejam oferecidas alternativas. Em situações de urgência ou emergência com iminente perigo de morte, a norma do CFM determina que o médico adote as medidas necessárias para preservar a vida. E, quando a recusa expõe o paciente a risco de morte, a manifestação deve ser preferencialmente por escrito e perante duas testemunhas.
O segundo ponto é que a decisão de voltar para casa e iniciar cuidados paliativos não deveria ser tratada como ruptura, mas como reorganização do cuidado. O Ministério da Saúde define cuidados paliativos como ações voltadas ao bem-estar e à qualidade de vida de pessoas com doença grave que ameaça ou limita a vida, com atenção ao sofrimento físico, emocional, social e espiritual, sempre respeitando necessidades e desejos do indivíduo. O próprio SUS vem expandindo a política nacional nesse campo.
Sob o ponto de vista da Educação de Precisão, o que interessa é tornar visíveis as variáveis humanas que realmente importam: o que a pessoa entendeu, o que ela teme, quem a acompanha, quais valores orientam sua decisão e que tipo de cuidado faz sentido para aquela família. Em termos de aprendizagem, isso é dado. Em termos de cuidado, isso é continuidade. Em termos humanos, respeito.
O paciente mudou, o acesso à informação mudou e o trabalho em saúde mudou. A educação também precisa mudar para qualificar escolhas e sustentar transições, sobretudo quando mais importa.
*Eduardo Senise é diretor de Educação Continuada da Unisinos.

