Por que o desenvolvimento infantil deve ser prioridade no Brasil
Por Camila dos Santos Moreira e Henrique Luis do Carmo e Sá
Nos últimos anos, o Brasil começou a despertar um olhar diferente sobre a primeira infância. Surgiram mais projetos de intervenção precoce (programas de visitação domiciliar, coleta de dados de marcos do desenvolvimento de maneira contínua), criação de ambientes públicos de estimulação (oficinas culturais/cognitivas, oferta de esportes) e maior investimento em profissionais voltados à identificação de atrasos nessa faixa etária. Mesmo com essas iniciativas intensificadas, ainda assim essa etapa da vida continua sem receber a prioridade e a relevância que merece.
Uma pesquisa da Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal com o Datafolha mostrou que 84% da população brasileira não considera os anos iniciais como a fase mais fundamental do desenvolvimento humano, e apenas 15% identifica a primeira infância, entre 0 e 6 anos, como o período de maior pico do desenvolvimento físico, emocional e de aprendizagem. Esse dado é especialmente preocupante porque é justamente nesse começo da vida que o desenvolvimento acontece com mais intensidade e sensibilidade.
Do ponto de vista científico, os primeiros anos de vida não podem ser vistos apenas como uma etapa preparatória para a vida adulta. Esse período é muito mais do que uma preparação: é a consolidação do arcabouço cognitivo, emocional, social e prático que determinará a funcionalidade do sujeito e sua capacidade de se adaptar às demandas do ambiente.
Na prática clínica, é comum que os pais cheguem trazendo uma preocupação aparentemente isolada, como um atraso de fala, irritabilidade, dificuldade de adaptação escolar, pouco contato social ou comportamentos muito rígidos, mas, ao olhar com mais cuidado, já existia um conjunto de sinais mostrando que aquela criança precisava ter sido assistida antes e, uma das possíveis razões é confundir o desenvolvimento infantil com crescimento físico. Até porque, desenvolver-se é ganhar repertório para se comunicar, brincar, sustentar atenção, compreender o outro, regular emoções, aprender, adaptar-se ao ambiente e conquistar autonomia progressivamente, crescer fisicamente compõe o desenvolvimento, não e ele por completo.
O problema é que, em vez de um olhar estruturado, muitas vezes ainda prevalece uma avaliação intuitiva, baseada em impressões gerais, na comparação com outras crianças e na premissa falsa de que “cada criança tem seu tempo”. Isso é especialmente grave porque o desenvolvimento infantil não pode depender apenas da subjetividade de quem observa, ainda que esse alguém tenha uma formação para isso. Ele exige, além de profissionais preparados, instrumentos certos e eficazes, capazes de rastrear alterações sutis de forma mais sistemática.
Essa lacuna fica ainda mais evidente na atenção primária. As equipes da atenção básica no SUS são historicamente treinadas para detectar risco, atraso e patologia, o que favorece uma lógica centrada no déficit e, muitas vezes, no déficit mais evidente. Nessa perspectiva, o sistema tende a enxergar com mais facilidade aquilo que falta de forma gritante do que aquilo que está se desorganizando de modo mais sutil no desenvolvimento. Forma-se, assim, uma espécie de cegueira clínica, na qual manifestações sutis são ignoradas e não tratadas a tempo do desenvolvimento.
Isso ajuda a explicar por que, mesmo quando a família percebe cedo que algo não vai bem, a resposta costuma demorar. No caso do autismo, por exemplo, dados divulgados a partir de estudo publicado na revista Autism mostram que, na América Latina e no Caribe, a média de idade da primeira preocupação dos pais com os sintomas dos filhos foi de 22,4 meses, enquanto a média de idade do diagnóstico foi de 46,3 meses, com uma diferença de 23,9 meses entre percepção de que algo não ia bem e detecção efetiva. Em outras palavras, muitas famílias percebem que há algo acontecendo, mas o sistema de saúde responde tardiamente.
Esse atraso importa porque, em desenvolvimento infantil, tempo não é detalhe. Estudos apontam a necessidade de melhorar a detecção e a intervenção precoce nos casos de transtornos do neurodesenvolvimento, sobretudo considerando que já existem marcadores comportamentais diferenciais entre 12 e 18 meses e que instrumentos de rastreio podem ser utilizados a partir dos 12 meses. Na atenção primária, podem ser empregados métodos de triagem de baixo custo, aplicáveis ao contexto da saúde pública e que não dependem de infraestrutura sofisticada nem de treinamento excessivamente especializado.
Esse ponto é crucial para a realidade brasileira. Não basta afirmar que identificar cedo é importante; é preciso criar condições concretas para que isso aconteça. E, apesar de já existirem excelentes instrumentos sensíveis para identificar precocemente alterações do desenvolvimento, eles muitas vezes não são utilizados, seja pelo custo, seja pela falta de especialização e conhecimento técnico dos profissionais para aplicá-los. A observação clínica é valiosa, mas insuficiente quando não vem acompanhada de formação específica, uso de instrumentos sensíveis e articulação entre os serviços.
Se queremos um país que leve a primeira infância a sério, precisamos parar de pensar a puericultura apenas como acompanhamento de peso, vacinação e marcos mais grosseiros do desenvolvimento. Tudo isso é fundamental, mas não basta. É preciso incorporar perguntas mais qualificadas sobre comunicação, interação, autorregulação, linguagem, brincar, sensorialidade e adaptação. É preciso formar melhor agentes comunitários, pediatras, profissionais da educação infantil e equipes intersetoriais para reconhecer não apenas déficits já instalados, mas também sinais precoces, perfis atípicos e necessidades de apoio.
Priorizar a primeira infância, portanto, não é defender uma pauta restrita à saúde ou à educação, mas sim defender uma agenda de desenvolvimento nacional. Quando o país negligencia os primeiros anos, amplia desigualdades, perde oportunidades de prevenção, atrasa intervenções e transforma questões potencialmente manejáveis em dificuldades mais complexas no futuro.
Por isso, discutir instrumentos de avaliação do desenvolvimento não é um preciosismo técnico, é falar de acesso mais qualificado ao cuidado. Entre os recursos que podem enriquecer esse processo está a Battelle, um instrumento já utilizado nos EUA e na Europa desde 1974 e que chegou recentemente ao Brasil. Esse instrumento permite que o profissional de saúde observe o desenvolvimento infantil de forma mais ampla e organizada, contemplando áreas como comunicação, cognição, adaptação, aspectos pessoais e sociais, além de habilidades motoras.
Isso é importante porque o desenvolvimento não é homogêneo. Uma criança pode apresentar bom desempenho em uma área e, ao mesmo tempo, mostrar fragilidades em outra. Estudos que utilizaram o Battelle mostram justamente essa utilidade: o instrumento ajuda a compreender perfis de desenvolvimento de forma mais refinada, permitindo uma leitura menos genérica e mais sensível das necessidades da criança. Em um estudo com crianças de 3 a 6 anos, por exemplo, o Battelle foi utilizado para comparar perfis de desenvolvimento em grupos com transtorno do espectro autista e Síndrome de Down, evidenciando diferenças em áreas como comunicação e desenvolvimento motor.
Além disso, o Battelle Developmental Inventory apareceu entre os instrumentos com utilidade para rastreio precoce, podendo contribuir para uma observação mais qualificada do desenvolvimento já em idades muito iniciais. Um ponto importante é que instrumentos como o Battelle não precisam ficar restritos a um único núcleo profissional. Pelo contrário: quando bem utilizados, podem favorecer uma linguagem comum entre diferentes profissionais da saúde que acompanham a criança. Psicólogos, fonoaudiólogos, terapeutas ocupacionais, fisioterapeutas, pediatras e equipes multiprofissionais podem se beneficiar de uma avaliação do desenvolvimento mais estruturada, especialmente quando o objetivo não é apenas nomear dificuldades, mas compreender funcionalmente como aquela criança está se desenvolvendo e de que tipo de suporte precisa.
Nesse sentido, a avaliação do desenvolvimento pode contribuir diretamente para a construção do Projeto Terapêutico Singular (PTS) nos serviços de saúde pública. Isso porque instrumentos dessa natureza ajudam a transformar percepções soltas em informações mais organizadas sobre pontos fortes, fragilidades e áreas prioritárias de acompanhamento. Em vez de um plano genérico, passa-se a ter mais base para construir intervenções individualizadas, interdisciplinares e coerentes com o perfil real da criança. Quando bem incorporada ao cuidado, a avaliação deixa de ser apenas um retrato e passa a orientar condutas, metas e prioridades terapêuticas.
Claro que nenhum instrumento resolve tudo sozinho, e nenhum teste substitui escuta clínica, raciocínio profissional e articulação entre saúde, escola e família. Ainda assim, bons instrumentos cumprem uma função decisiva: ajudam a tirar o desenvolvimento infantil do campo da impressão e levá-lo para um campo mais estruturado, comparável e sensível. Isso é especialmente importante quando falamos de sinais sutis, de crianças pequenas e de contextos em que o atraso pode ser confundido com temperamento, birra, imaturidade ou “fase”.
Também precisamos lembrar que o desenvolvimento infantil não depende apenas da ausência de doença, mas da qualidade das experiências que a criança vive. Um estudo recente mostrou que, na infância precoce, certos contextos de uso de telas se associam a piores desfechos cognitivos e psicossociais, enquanto o uso compartilhado com mediação do cuidador aparece de forma mais favorável para o desenvolvimento cognitivo. Isso reforça uma ideia simples e profunda: o ambiente não é pano de fundo. O ambiente participa ativamente da construção da criança.
Priorizar a primeira infância, portanto, não é defender uma pauta restrita à saúde ou à educação. É defender uma agenda de desenvolvimento nacional. Significa informar melhor as famílias, qualificar mais os profissionais, fortalecer a atenção primária e ampliar o uso de estratégias de rastreio e avaliação que ajudem a identificar atrasos e alterações antes que o problema se torne maior. Os primeiros anos não são apenas o começo da vida. São o período em que a vida está sendo organizada, e um país que não entende isso começa tarde demais a cuidar do seu próprio futuro.
*Camila dos Santos Moreira é psicóloga pela Universidade de Fortaleza, Mestranda em Ciências Médicas pela Universidade de Fortaleza, especialista em Neuropsicologia pelo Conselho Federal de Psicologia, com formação em Neuropsicologia pelo Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, formação em Intervenções Familiares pelo Instituto Vila Elo, Terapeuta Cognitivo-Comportamental, Parceira da Vetor Editora.
*Henrique Luis do Carmo e Sá é médico pela Universidade Federal do Ceará, com residência em Pediatria pelo Hospital Universitário Walter Cantídio (UFC), especialista em Desenvolvimento Infantil pela Universidade de Londres, mestre em Educação para as Profissões da Saúde e doutor em Educação (Ensino Superior) pela Universidade de Liverpool. É professor titular do Programa de Pós-Graduação em Ciências Médicas e do Curso de Medicina da Universidade de Fortaleza, além de assessor educacional da Escola de Saúde Pública do Ceará.

