Dados desconectados ainda colocam pacientes em risco
Por Carina Fim
O maior problema da saúde hoje não é falta de informação. É um excesso de dados desconectados. Hospitais, operadoras, laboratórios e serviços de diagnóstico geram um volume imenso de registros, imagens e históricos clínicos, porém boa parte desse material segue presa em sistemas que não se comunicam. O próprio Fórum Econômico Mundial afirma que 97% dos dados gerados pelo setor de saúde permanecem sem uso efetivo. Isso revela um paradoxo preocupante. Fala-se muito em inteligência artificial aplicada à saúde, mas ainda se negligencia a base que torna qualquer uso seguro e útil. Sem interoperabilidade e governança, a promessa tecnológica perde força justamente onde a precisão mais importa.
Essa fragmentação custa caro em eficiência e em cuidado. A interoperabilidade em saúde não é só uma agenda de tecnologia. É uma agenda assistencial. A Office of the National Coordinator for Health IT, órgão federal dos Estados Unidos voltado à transformação digital em saúde, destaca que a interoperabilidade promove a troca padronizada e segura de dados eletrônicos para melhorar cuidado, coordenação e saúde pública. Já uma revisão publicada na PubMed Central concluiu que a interoperabilidade de prontuários eletrônicos influenciou positivamente a segurança medicamentosa, reduziu eventos de segurança do paciente e ajudou a cortar custos. Quando o histórico clínico não circula direito, o risco deixa de ser abstrato. Ele aparece no exame repetido, no leito mal alocado, na alta mal coordenada e na decisão clínica tomada com visão incompleta do paciente.
É nesse ponto que a discussão sobre IA na saúde precisa amadurecer. O setor não pode tratar modelos preditivos e assistentes algorítmicos como uma camada mágica capaz de compensar bases ruins. A própria Organização Mundial da Saúde (OMS) alerta que, em saúde, os principais temores ligados à IA passam por segurança do paciente, acesso justo e privacidade digital, além do risco de decisões equivocadas quando os dados são incompletos ou enviesados. Um estudo publicado na npj Digital Medicine em 2025, ao propor um framework para segurança clínica e alucinações, observou taxa de alucinação de 1,47% e taxa de omissão de 3,45% em avaliações realizadas. Em outras áreas, isso já seria preocupante. Na saúde, é potencialmente inaceitável.
O relatório anual da ECRI para 2026 colocou o uso indevido de chatbots em saúde entre os principais riscos tecnológicos do ano e registrou exemplos de respostas com diagnósticos incorretos, recomendações inadequadas e até informações inventadas. Quando um sistema parece convincente e erra com fluidez, o dano não é apenas reputacional. Ele pode comprometer conduta clínica, experiência do paciente e confiança institucional. Em saúde, controles, validações e regras de uso não funcionam como entraves administrativos. Eles são parte essencial de uma aplicação responsável, segura e compatível com a sensibilidade do cuidado.
Por isso, a ordem correta da transformação digital em saúde precisa ser respeitada. Primeiro vêm integração, padronização, qualidade de dados e critérios de acesso. Depois entram os modelos de IA com limites claros de privacidade, rastreabilidade, validação humana e contenção de alucinações. O McKinsey Health Institute reforça que a integração fluida de sistemas digitais de saúde pode melhorar experiência e desfechos de pacientes e profissionais, embora os caminhos técnicos variem conforme o contexto. A questão central, portanto, não é adotar IA a qualquer custo. É construir uma fundação de dados capaz de sustentar aplicações clínicas e operacionais sem ampliar risco.
A saúde contemporânea não precisa de mais deslumbramento tecnológico. Precisa de responsabilidade estrutural. Os ganhos mais transformadores da IA no setor tendem a surgir menos no discurso e mais nos bastidores, onde interoperabilidade reduz atrito, governança protege privacidade e guardrails diminuem erro antes que ele alcance o paciente. Em um ambiente tão sensível, inovação relevante não é a que impressiona primeiro. É a que funciona com segurança, consistência e capacidade real de melhorar cuidado e eficiência ao mesmo tempo.
*Carina Fim Oliveira de Carvalho é Account Executive na HVAR.

