TAVI: por que a incorporação seletiva pode ampliar o acesso
Por Sérgio Madeira
A cardiologia intervencionista vive uma transformação silenciosa, porém profunda, impulsionada por tecnologias minimamente invasivas capazes de redefinir o tratamento da Doença Estrutural Cardíaca. Entre esses avanços, o implante de válvula aórtica via transcateter, conhecido mundialmente como TAVI (Transcatheter Aortic Valve Implantation), destaca-se como uma das inovações mais relevantes no tratamento da estenose aórtica grave, especialmente em pacientes idosos ou com alto risco cirúrgico.
Nos Estados Unidos e em diversos países europeus, a TAVI já se consolidou como alternativa terapêutica amplamente utilizada, para pacientes de todos os riscos, desde o final dos anos 2000, respaldada por evidências científicas robustas e resultados clínicos consistentes. Estudos recentes demonstram que o procedimento não apenas se equipara à cirurgia convencional de troca valvar por esternotomia, como também apresenta vantagens importantes em determinados grupos de pacientes.
Uma meta-análise publicada no ano passado, envolvendo 5.341 pacientes de baixo risco, mostrou redução de 20% no risco de morte e de 19% no desfecho combinado de morte ou acidente vascular cerebral incapacitante em cinco anos entre pacientes submetidos à TAVI quando comparados à cirurgia convencional. Esses resultados reforçam a evolução tecnológica e o amadurecimento da técnica ao longo da última década.
Além dos desfechos clínicos de longo prazo, estudos internacionais demonstram benefícios perioperatórios relevantes. Pacientes submetidos à TAVI apresentam menor tempo de hospitalização, frequentemente entre um e dois dias, contra aproximadamente uma semana na cirurgia aberta, e recuperação funcional significativamente mais rápida, permitindo retorno às atividades habituais em cerca de uma semana, enquanto a recuperação cirúrgica pode levar de três a seis meses. Também foram observadas menores taxas de sangramento maior, fibrilação atrial pós-operatória e lesão renal aguda.
Por outro lado, a tecnologia não está isenta de desafios. A literatura aponta maior necessidade de implante de marca-passo permanente. Esses aspectos reforçam a importância da adequada seleção de pacientes e do aperfeiçoamento contínuo das equipes e dispositivos.
No Brasil, entretanto, o cenário ainda é marcado por assimetrias de acesso. No sistema privado de saúde, a cobertura da TAVI é relativamente mais ampla, embora ainda heterogênea entre operadoras. Tanto na ANS quanto no SUS o procedimento está previsto com restrições, por exemplo apenas para pacientes com 75 anos ou mais, inoperáveis e de alto risco cirúrgico. Essa limitação na adoção da terapia no Brasil leva ao cenário de procedimentos serem viabilizados somente por judicialização, o que evidencia a distância entre a inovação tecnológica disponível e sua incorporação estruturada às políticas públicas. Grande parte dos pacientes com estenose aórtica grave, de médio e baixo riscos cirúrgicos continuam sem acesso ao tratamento e com a doença avançando.
A experiência nacional ainda é restrita quando comparada ao volume internacional, mas os dados existentes são encorajadores. O Registro Brasileiro de TAVI, estudo publicado em 2015, multicêntrico envolvendo 418 pacientes em 18 centros, demonstrou mortalidade de 9,1% em 30 dias e 21,5% em um ano, resultados compatíveis com a fase inicial de adoção da tecnologia em outros países. O estudo também identificou fatores clínicos associados ao prognóstico e destacou o papel da qualificação técnica na melhoria dos desfechos. Hoje, com a maior adoção ao longo dos anos e com os avanços das válvulas, essa taxa pode atingir 0,4% de mortalidade em 30 dias
Do ponto de vista econômico, o debate é inevitável. Avaliação brasileira recente comparando TAVI e cirurgia convencional no contexto do SUS demonstrou custo total significativamente maior para o procedimento transcateter, impulsionado principalmente pelo valor das próteses. Contudo, o estudo também evidenciou vantagens clínicas relevantes, como menor tempo de internação e redução da mortalidade absoluta em um ano. Esses achados sugerem que, embora mais onerosa inicialmente, a tecnologia pode gerar benefícios clínicos que justificam sua utilização em populações bem definidas.
Diante desse cenário, a discussão não deve se limitar à dicotomia entre incorporar ou não incorporar a TAVI ao SUS, mas sim como incorporá-la de forma responsável, gradual e baseada em evidências. A incorporação ágil e seletiva surge como caminho racional e sustentável.
Adotar critérios clínicos claros, priorizando pacientes de alto risco cirúrgico ou com contraindicações à cirurgia convencional, permitiria ampliar o acesso enquanto se desenvolvem estudos nacionais robustos de custo-efetividade e resultados em vida real. Esse modelo favorece a geração de evidências locais, fundamentais para decisões regulatórias mais sólidas e alinhadas à realidade epidemiológica e econômica brasileira.
Além disso, a ampliação controlada do uso da TAVI pode estimular novos modelos de acesso como VBHC ou Compartilhamento de Risco para um racionalização dos recursos do sistema de saúde, incentivar a formação de centros especializados e fortalecer a produção científica nacional, criando um ciclo virtuoso entre inovação, acesso e sustentabilidade.
A medicina moderna exige decisões pautadas pela melhor evidência disponível, mas também pela responsabilidade social na alocação de recursos. Ignorar uma tecnologia com resultados promissores internacionalmente pode significar retardar benefícios concretos aos pacientes. Por outro lado, incorporá-la sem critérios comprometeria a sustentabilidade do sistema. Mais do que uma decisão tecnológica, trata-se de uma escolha estratégica em favor da medicina baseada em evidências e do cuidado centrado no paciente.
Postergar a incorporação da TAVI não só expõe pacientes a maior risco de complicações e mortalidade, como também aumenta o custo assistencial, já que a falta de acesso à inovação resulta em mais internações prolongadas, procedimentos de emergência e uso intensivo de recursos hospitalares.
*Sérgio Madeira é diretor técnico da Associação Brasileira de Importadores e Distribuidores de Produtos para Saúde (ABRAIDI).

