Mais que tecnologia, saúde precisa de menos complexidade
A saúde se acostumou a associar inovação à adoção de tecnologia. Inteligência artificial, automação e digitalização ocupam o centro do debate. Mas o que mais pressiona custos hoje no setor não é a falta de soluções, e sim a forma como ele ainda opera.
Esse é um problema estrutural, muitas vezes negligenciado.
Ao longo dos anos, hospitais, operadoras e demais agentes da cadeia incorporaram camadas sucessivas de regras, etapas e exigências que raramente foram revisadas. Muitos desses processos permanecem não porque são necessários, mas porque nunca foram questionados. O resultado é um modelo operacional fragmentado, pouco integrado e, sobretudo, ineficiente.
Esse desenho impacta diretamente o custo da saúde.
Processos complexos aumentam desperdícios, reduzem previsibilidade e dificultam a gestão eficiente de recursos, especialmente em áreas críticas como suprimentos e ciclo da receita. São distorções que não aparecem de forma isolada, mas que, somadas, pressionam margens e comprometem a sustentabilidade do sistema.
Nesse contexto, a tecnologia tem sido frequentemente tratada como solução imediata. Mas há um equívoco nessa lógica.
Automatizar processos ineficientes não resolve o problema. Apenas acelera suas distorções.
Uma das discussões mais relevantes que emergiram da HIMSS 2026 reforça esse ponto: inovação não começa com tecnologia. Começa com simplificação. Antes de aplicar inteligência artificial ou qualquer ferramenta digital, é necessário entender com clareza qual problema se quer resolver e, principalmente, redesenhar os processos que sustentam essa operação.
Isso exige disciplina e decisões difíceis.
Simplificar significa questionar requisitos, eliminar etapas desnecessárias e reduzir a complexidade operacional acumulada ao longo do tempo. É um exercício que desafia práticas estabelecidas, mas que é essencial para viabilizar ganhos reais de eficiência.
Quando processos são estruturados, os dados passam a ser organizados de forma consistente. E somente a partir daí tecnologias como inteligência artificial conseguem gerar impacto, trazendo previsibilidade, apoiando decisões e reduzindo desperdícios de forma sistêmica.
Essa lógica é particularmente relevante no Brasil.
O sistema de saúde brasileiro ainda opera com baixo nível de integração entre planejamento, suprimentos e ciclo de receita. Essa fragmentação limita a capacidade de gestão e reduz o potencial de captura de valor, mesmo quando há investimento em tecnologia.
Por outro lado, quando essas dimensões passam a operar de forma conectada, os ganhos deixam de ser pontuais e passam a ser estruturais. A operação se torna mais eficiente, as decisões mais rápidas e o uso de recursos mais racional.
Em um cenário de pressão crescente sobre custos e necessidade de ampliar acesso, essa mudança deixa de ser opcional. Passa a ser uma condição para a sustentabilidade do setor.
A tecnologia continuará tendo um papel relevante. Mas ela não será o ponto de partida.
A transformação da saúde não será definida por quem adota mais soluções, mas por quem consegue operar de forma mais simples, integrar sua cadeia e usar dados para tomar melhores decisões.
Porque, no fim, o que realmente encarece a saúde não é a tecnologia, e sim a forma como ela ainda funciona.
*Ana Luiza Oliveira é Diretora de Clientes da Bionexo.

