OSS no SUS: eficiência sem abrir mão da segurança do paciente
Por Letícia Turim
As Organizações Sociais de Saúde (OSS’s) têm ganhado espaço na gestão de unidades do Sistema Único de Saúde (SUS), prometendo mais eficiência no uso de recursos públicos. A eficiência é essencial, sim, mas não pode vir às custas da qualidade e da segurança na assistência. Precisamos de um equilíbrio delicado: otimizar gastos sem comprometer o desfecho do paciente.
No SUS, onde os recursos são escassos, o modelo de OSS oferece agilidade administrativa e foco em resultados. Contratos com metas claras permitem contratações rápidas e auditorias rigorosas, reduzindo desperdícios como internações prolongadas desnecessárias que custam bilhões anualmente. Dados da saúde suplementar já apontam R$ 10,6 bilhões em prejuízos por insegurança assistencial. No público, o cenário é pior: 36 mil óbitos por eventos adversos em 2017 revelam falhas evitáveis que matam mais que muitas doenças.
Por que as pessoas ficam internadas mais do que deveriam? Um leito hospitalar é um recurso caro e escasso. Quando um paciente permanece internado por mais tempo do que sua condição exige, não é apenas dinheiro que se perde, mas outra pessoa em estado grave fica sem vaga. Pesquisas mostram que as causas desse problema são bem conhecidas: demora na realização de exames, lentidão nas autorizações de procedimentos, falta de estrutura para cuidar do paciente em casa após a alta e dificuldades de comunicação com familiares.
Um sistema de saúde eficiente não é aquele que tem mais leitos é aquele que precisa usar cada leito pelo menor tempo necessário, com o melhor resultado possível.
Da mesma forma, muitas internações poderiam simplesmente não acontecer. Uma atenção primária de qualidade com postos e UBSs bem equipados e com médicos disponíveis é capaz de resolver a grande maioria dos problemas de saúde antes que eles exijam hospitalização. Quando isso falha, o paciente vai parar na emergência, superlota o pronto-socorro e acaba internado por condições que eram totalmente tratáveis de forma ambulatorial.
Contudo, o risco é real: priorizar cortes pode levar a protocolos frouxos e falta de investimentos em prevenção. Mesmo OSS de pequeno porte, como as que gerem UPA’s regionais, devem insistir em modelos baseados no desfecho do paciente e mortalidade ajustada por risco, readmissões e satisfação. Certificações como a ONA (Organização Nacional de Acreditação) e protocolos de segurança, para prevenção de infecções, não são opcionais. Elas garantem que a “eficiência” não se traduza em leitos liberados às pressas, mas em cuidados que evitam retornos e complicações.
Criticamente, o poder público deve fiscalizar: contratos sem indicadores de qualidade viram armadilhas. OSS’s bem-sucedidas, que buscam certificações e aprimoramentos constante, algumas até mesmo premiadas como as do Prêmio Hospitais Líderes na Entrega de Valor em Saúde (curadoria do IAG Saúde, ONA e Consórcio Internacional para Medição de Resultados em Saúde – ICHOM), provam que é possível: menor mortalidade que o esperado, com uso proporcional de recursos.
Observo que entre as instituições premiadas, um número expressivo é gerido por Organizações Sociais de Saúde vinculadas ao SUS. Isso não é coincidência. É o resultado de uma gestão focada em resultados, de protocolos assistenciais rigorosos e de uma cultura institucional que trata a qualidade do cuidado como prioridade estratégica, não como burocracia.
Mas para as menores, o desafio é maior: sem escala, dependem de disciplina férrea em evidências clínicas. Precisamos persistir com esse foco e na educação continuada como obsessão.
O SUS precisa de OSS’s que transformem eficiência em valor real: mais saúde por real investido, com pacientes seguros. Sem isso, avançamos para o abismo do desperdício humano.
*Letícia Turim é presidente do Grupo Chavantes.

