Debate sobre hiperplasia benigna da próstata está mudando de foco
O tratamento da Hiperplasia Prostática Benigna (HPB) — condição que afeta milhões de homens, especialmente após os 50 anos — vive um momento de transformação. Nos últimos anos, técnicas minimamente invasivas, conhecidas como MISTs (como UroLift, Rezum, Aquablation, Embolização), ganharam popularidade por prometerem recuperação rápida e menor impacto na ejaculação.
Mas uma pergunta fundamental começa a ganhar destaque entre especialistas e pacientes: o que realmente funciona melhor no longo prazo?
Um grande estudo internacional publicado em 2026, baseado em mais de 420 mil procedimentos reais, trouxe uma resposta clara. Ao comparar diferentes tratamentos ao longo de cinco anos, os resultados mostraram que nos casos em que foi usada a técnica HoLEP (enucleação a laser), houve necessidade de novas cirurgias em apenas 4,4% dos casos. Já nos casos de RTU de próstata, popularmente conhecida como “raspagem”, esse percentual sobe para 7,1% dos casos. E quando aplicadas as técnicas minimamente invasivas (MISTs), a necessidade de novas cirurgias salta para 14% a 17% dos casos.
Um estudo canadense feito com 1476 pacientes submetidos ao HoLEP e seguidos por 18 anos mostrou uma necessidade de reoperação de apenas 2,1% após todo o período de seguimento.
Na prática, isso significa que pacientes tratados com técnicas minimamente invasivas têm um risco 3 a 4 vezes maior de precisar de um novo procedimento em poucos anos.
Além das reoperações, o estudo identificou que as chances de ter que voltar a tomar medicações para próstata ou bexiga também foi bem superior no grupo de MISTs quando comparado ao HoLEP.
Para quem encara a decisão como algo “definitivo”, essa diferença deixa de ser detalhe — e passa a ser decisiva.
O grande diferencial do HoLEP está na forma como ele trata a doença. Enquanto os métodos minimamente invasivos reduzem ou afastam o tecido prostático, o HoLEP realiza uma remoção completa do adenoma, seguindo um plano anatômico natural da próstata.
Na prática, isso se traduz em menor chance de recrescimento, alívio mais completo da obstrução urinária, além de resultados sustentados ao longo dos anos.
Em termos simples, a adoção desse método não apenas melhora, mas resolve o problema com maior chance de não voltar.
É verdade, contudo, que à primeira vista, os MISTs podem parecer mais atrativos, uma vez que os procedimentos, em geral, são mais rápidos, a alta médica também é precoce e há menor invasividade no início.
Contudo, especialistas alertam para um ponto frequentemente negligenciado: o custo ao longo do tempo.
Quando há necessidade de reintervenção, entram em cena novos procedimentos, maior complexidade cirúrgica (especialmente após implantes ou cicatrizes) e, no fim das contas, aumento do custo total para o sistema de saúde e para o paciente.
Ou seja, o tratamento que, inicialmente, parece ser “mais simples” pode se tornar mais caro — e mais difícil — no futuro.
Quem passa por procedimentos na próstata, costuma preocupar-se, também, com a preservação das funções sexuais. Técnicas minimamente invasivas tendem a preservar a ejaculação de formas variáveis, mas ainda assim sem garantias, enquanto o HoLEP, assim como a RTU, leva s alterações na ejaculação em 70% dos casos.
Mas o ponto importante é: Nem o HoLEP e nem os MISTs alteram a função sexual, ou seja, a ereção, libido e prazer/orgasmo são mantidos. Esse é um ponto legítimo — e importante.
O fato é que, hoje, o debate sobre a hiperplasia prostática benigna está mudando de foco. Mais do que tempo de internação e rapidez de recuperação, o que começa a pesar mais é a durabilidade do tratamento, a necessidade (ou não) de novas cirurgias e a resolução completa da obstrução.
Nesse cenário, o HoLEP tem se consolidado como uma das opções mais robustas.
O avanço das tecnologias trouxe mais opções — o que é positivo. Mas também tornou a decisão mais complexa.
A principal crítica de especialistas hoje não é contra os métodos minimamente invasivos em si, mas contra a forma como muitas vezes são apresentados: com foco nos benefícios imediatos, sem, contudo, discutir claramente os resultados de longo prazo.
Para o paciente, a mensagem é direta: antes de escolher o tratamento, é fundamental entender não apenas como será a recuperação, mas como estará a sua saúde urinária daqui a alguns anos.
*Alexandre Iscaife é Médico urologista do Hospital das Clínicas e doutor pela Faculdade de Medicina da USP.

