O novo desafio de gestão hídrica nas redes hospitalares
Por Felipe Mendes
Por anos, a gestão de água em hospitais foi tratada como responsabilidade da equipe de manutenção. Verificar vazamentos, controlar contas, acionar o fornecedor em caso de falta. Um conjunto de tarefas operacionais sem conexão direta com a qualidade assistencial ou com os processos de certificação institucional. Esse cenário está mudando.
A revisão progressiva dos critérios de acreditação hospitalar, tanto pela Organização Nacional de Acreditação (ONA) quanto pela Joint Commission International (JCI), vem incorporando exigências mais rigorosas em torno da gestão de recursos críticos de infraestrutura. Água, nesse contexto, deixa de ser apenas uma utilidade e passa a ser tratada como insumo assistencial, sujeito a protocolos, documentação e rastreabilidade.
A mudança tem impacto direto na operação de redes hospitalares. Sem monitoramento estruturado, não há dados. Sem dados, não há como demonstrar conformidade. E sem conformidade, o processo de acreditação ou reacreditação enfrenta obstáculos que vão muito além do que a área de facilities consegue resolver sozinha.
O peso do consumo invisível
Os números ajudam a dimensionar o problema. Redes hospitalares consomem em média 500 litros de água por leito por dia, volume que varia conforme a complexidade dos procedimentos realizados e o perfil da unidade. Em hospitais sem sistemas de monitoramento ativo, as perdas por vazamentos e ineficiências operacionais podem chegar a 28% do consumo total, segundo dados levantados em operações do setor.
Esse desperdício não é apenas financeiro. Em uma unidade de saúde, a água está presente em praticamente todos os processos críticos: esterilização de instrumentais, funcionamento de UTIs, lavagem cirúrgica, sistemas de climatização. Uma falha no abastecimento, ou uma contaminação não detectada, tem potencial de comprometer a continuidade assistencial de forma imediata.
É exatamente esse risco que os novos critérios de acreditação buscam endereçar. A lógica é a mesma aplicada à gestão de medicamentos ou à manutenção de equipamentos críticos: o que não é monitorado não pode ser controlado, e o que não pode ser controlado representa risco para o paciente.
Da manutenção à governança
A transição exige uma mudança estrutural na forma como as redes hospitalares organizam a responsabilidade sobre o tema. Enquanto a gestão de água permanecer restrita à área de infraestrutura, sem conexão com as equipes de qualidade, compliance e gestão de riscos, o hospital opera com um ponto cego nos seus processos de governança.
O caminho que hospitais acreditados ou em processo de acreditação têm adotado passa por três frentes simultâneas: implantação de sistemas de monitoramento em tempo real que permitam identificar anomalias de consumo antes que se tornem crises; desenvolvimento de protocolos documentados para situações de escassez ou contaminação; e integração dos indicadores hídricos aos painéis de gestão que já acompanham outros insumos críticos.
Acreditação como vetor de transformação
O movimento de acreditação hospitalar no Brasil, que avançou de forma expressiva na última década, criou um mecanismo indireto mas eficaz de indução de boas práticas de gestão. Ao transformar a gestão hídrica em critério auditável, os organismos fazem o que tarifas crescentes e pressão ESG ainda não tinham conseguido fazer de forma sistemática: colocar o tema dentro do processo formal de governança hospitalar.
Para redes com múltiplas unidades em processo simultâneo de acreditação ou reacreditação, o desafio é ainda maior. Sem uma política centralizada de gestão hídrica, cada unidade tende a responder de forma diferente às exigências dos auditores, criando inconsistências que comprometem tanto o processo de certificação quanto a capacidade de benchmarking interno.
A tendência é que essa pressão se intensifique. Com o avanço dos padrões de reporte ambiental corporativo e a incorporação progressiva de critérios ESG nas exigências de financiamento e de contratos com operadoras de saúde, a gestão hídrica deve consolidar seu espaço como função estratégica dentro das organizações hospitalares, e não apenas como item de checklist regulatório.
*Felipe Mendes é Diretor comercial nacional da T&D Sustentável.

