A asfixia financeira dos hospitais privados no Brasil

Por Eduardo Agostini

O sistema hospitalar privado brasileiro atravessa um período crítico, marcado por custos assistenciais em alta, receitas comprimidas e pressão de caixa.

Parte dessa asfixia se explica pela escalada contínua dos custos. A inflação médica segue bem acima da inflação geral. Em 2025, levantamentos apontaram inflação médica na casa de 16,9%, enquanto o IPCA acumulou aproximadamente 4,5%, refletindo a combinação de dólar caro, incorporação tecnológica, demanda reprimida pós-pandemia e judicialização.

O Índice de Variação de Custos Médico-Hospitalares (VCMH/IESS), referência do setor suplementar, manteve variações de dois dígitos nas últimas edições (2024–2026), reforçando a tendência estrutural de pressão sobre insumos, terapias e internações.

Além disso, dados do Boletim da Planisa do primeiro semestre de 2025 evidenciam uma pressão crescente sobre os custos hospitalares, que exige atenção de gestores e formuladores de políticas públicas. Os materiais hospitalares, por exemplo, registraram aumento próximo de 14% entre 2023 e 2024, tendência que se mantém no início de 2025, impulsionada principalmente pelo câmbio e pela alta nos preços de insumos importados.

No centro cirúrgico, o custo da hora segue em elevação, em torno de 15% no mesmo período, puxado pelo aumento de 19% nos custos de pessoal não médico, enquanto a ociosidade das salas continua a amplificar o custo por procedimento, um claro sinal de que eficiência e gestão de recursos ainda são desafios críticos.

No pronto-socorro, o custo por atendimento avançou cerca de 17%, mesmo com queda no volume de atendimentos, refletindo o peso de custos fixos e a complexidade dos casos, uma combinação que compromete a sustentabilidade financeira das instituições.

Nas internações, a realidade não é diferente: O custo médio da diária (paciente/dia), unidades adultas não críticas registraram alta média de 10,4%, enquanto as UTIs adultas cresceram de forma mais moderada, cerca de 3,3%, e as UTIs pediátricas e neonatais continuam em trajetória de alta, ainda que em ritmo mais contido. Esses números não são apenas estatísticos, eles revelam que, sem medidas estruturais e políticas de apoio consistentes, a pressão sobre os custos hospitalares tende a se intensificar, impactando diretamente o acesso e a qualidade dos serviços de saúde.

Enquanto os custos sobem, as receitas ficam engessadas e glosas são crescentes. Em 2024, os hospitais privados associados à Associação Nacional de Hospitais Privados (ANAHP) sofreram em valores retidos por glosas — 15,89% do faturamento anual.

O índice de glosa inicial evoluiu de 7,26% (1º tri/2023) para 9,88% (1º tri/2024) e atingiu 17% (1º tri/2025), enquanto a glosa final ficou em aproximadamente 2% — uma diferença que implica retenção de caixa durante longos ciclos de discussão. No mesmo período, o prazo médio de recebimento se aproximou de 73–79 dias, contra 46–48 dias de pagamento a fornecedores, ampliando o gap de capital de giro.

A margem EBITDA (indicador de eficiência operacional que mede a porcentagem da receita que sobra após cobrir custos operacionais) dos hospitais caiu de 14% (2º tri/2023) para 10,7% (2º tri/2025), sinalizando compressão de rentabilidade mesmo com ganhos operacionais assistenciais.

Hospitais privados que complementam o SUS, principalmente os filantrópicos (mais de 61% das internações de alta complexidade), reportam defasagem entre 40% e 60% na Tabela SUS, gerando endividamento crônico de bilhões de reais. A Lei 14.820/2024 prevê revisões periódicas da remuneração SUS, mas ainda não resolveu, e de certo não resolverá, a defasagem acumulada.

Vemos, então, que a eficiência assistencial cresce, mas não fecha a conta. Apesar da melhora em indicadores clínicos entre hospitais privados — taxa de mortalidade operatória reduziu para 0,27% (2024) e tempo médio de internação caiu para 3,99 dias, com taxa de ocupação próxima de 79% — os sinais financeiros pioraram (glosas, inadimplência, rotatividade).

Tendências operacionais como adaptação a modelos alternativos de remuneração (diárias, bundles/pacotes, além do fee-for-service) vêm crescendo, mas ainda não compensam, sozinhas, a pressão dos custos e a imprevisibilidade do ciclo de recebimento.

Diante de tudo isso, a asfixia financeira dos hospitais privados é multifatorial e quantificável: custos em alta de dois dígitos, glosas que retêm 16% do faturamento, prazo de recebimento próximo a 80 dias, e margens comprimidas. O quadro pede respostas sistêmicas: contratos inteligentes, políticas de reajuste mais aderentes à inflação médica, eficiência operacional rigorosa e acesso. Sem isso, o setor arrisca erosão de capacidade assistencial e de investimento, com impactos diretos na qualidade do cuidado e no acesso da população.


*Eduardo Agostini é diretor de Desenvolvimento de Negócios da Planisa.

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