O papel do acesso à água na promoção da saúde
Ultimamente, temas muito relevantes, como o futuro dos tratamentos, hospitais, medicamentos e acesso a profissionais qualificados, estão em alta. No entanto, há um ponto essencial, e frequentemente invisibilizado, que sustenta toda a lógica de prevenção e qualidade de vida: a universalização do acesso à água segura para consumo.
A relação entre água e saúde é direta e inegociável. Sem água tratada, aumentam os casos de doenças de veiculação hídrica, sobrecarregando sistemas de saúde e impactando, de forma desproporcional, as populações mais vulneráveis. Ainda assim, esse tema costuma aparecer apenas em momentos específicos, como crises sanitárias ou eventos climáticos extremos, quando, na verdade, deveria estar no centro das discussões sobre bem-estar coletivo durante o ano todo.
Segundo dados do Relatório Mundial das Nações Unidas sobre o Desenvolvimento da Água de 2026, cerca de 2,1 bilhões de pessoas no mundo ainda vivem sem acesso à água potável segura. Isso nos diz que aproximadamente 1 em cada 4 pessoas no planeta ainda não têm acesso a esse direito básico em pleno século XXI.
Esse cenário se torna ainda mais evidente em regiões que enfrentam desafios estruturais históricos de saneamento. Em muitos territórios, especialmente os mais remotos, o acesso à água de qualidade é uma incerteza diária. A insegurança hídrica compromete a saúde e também a dignidade, a segurança, o tempo de escolaridade, a permanência no trabalho e as possibilidades de desenvolvimento de comunidades inteiras.
Segundo dados recentes do Instituto Trata Brasil, estudantes que têm acesso ao saneamento básico permanecem, em média, 10 anos na escola, enquanto aqueles sem esse acesso permanecem cerca de 8 anos, demonstrando uma diferença significativa na trajetória educacional. A baixa permanência escolar é resultado de diversos fatores, como a incidência de doenças e a necessidade de buscar água tratada para a família, percorrendo longas distâncias, o que leva a faltas recorrentes e compromete o desempenho escolar, reforçando um ciclo de desigualdade que impacta não apenas a saúde, mas também as oportunidades futuras dessas crianças e adolescentes.
Diante desse contexto, trago aqui um questionamento que vejo como fundamental: precisamos ampliar o olhar sobre o que significa, de fato, promover saúde. Acredito que investir em soluções que atuem na base do problema, garantindo acesso contínuo e seguro à água, inclusive em cenários adversos, deve estar no centro dos debates mais importantes. Tecnologias adaptáveis e descentralizadas, capazes de operar em diferentes realidades e responder rapidamente a situações de emergência, ganham um papel cada vez mais relevante.
A transformação na saúde gera impacto social, pois, ao ampliar a resiliência das comunidades, desigualdades históricas podem ser reduzidas. Ao garantir água de qualidade, criamos as condições mínimas para que a saúde (física, mental e social) possa se desenvolver de forma sustentável, impulsionando essas populações.
Para mim, discutir saúde sem considerar o acesso à água segura é tratar apenas os efeitos, e não as causas. Para que sistemas de saúde sejam mais sustentáveis, eficientes e menos sobrecarregados, é fundamental investir em soluções estruturais que atuem na prevenção, o que passa, necessariamente, pela universalização do acesso à água de qualidade. Incorporar essa agenda de forma integrada é um passo decisivo para reduzir riscos sanitários, otimizar recursos e, sobretudo, garantir condições reais de saúde para a população.
*Fernando Marcos Silva é CEO da PWTech.

