Ineficiência revela até R$ 2 bilhões em receitas não realizadas
Um estudo publicado no Jornal Brasileiro de Economia da Saúde identificou que ineficiências operacionais em hospitais podem representar até R$ 2 bilhões em receitas não realizadas entre 2020 e 2024. A análise foi conduzida a partir de quase 104 mil internações em sete hospitais de grande porte no Brasil e utilizou a Teoria de Resposta ao Item (TRI), metodologia estatística aplicada para estruturar o Índice de Eficiência e Sustentabilidade (IES), um novo modelo de avaliação hospitalar desenvolvido no contexto pós-pandemia, período marcado por maior pressão sobre a sustentabilidade do setor.
O estudo foi desenvolvido por pesquisadores da área de inteligência médica da 2iM, healthtech brasileira especializada na análise de dados e gestão em saúde. Os dados mostram que parte relevante dessas perdas está associada a desalinhamentos entre o desempenho observado e os parâmetros esperados para cada tipo de internação. O tempo médio de permanência foi de 4,11 dias, acima do referencial de 2,90 dias, o que representa uma oportunidade estimada de R$ 1,6 bilhão no período analisado. Ao mesmo tempo, 30,69% das altas ocorreram fora do horário considerado adequado, gerando impacto adicional de R$ 474 milhões, relacionado principalmente à perda de eficiência no uso de leitos e na logística hospitalar.
Embora esses números indiquem fragilidades operacionais, os indicadores assistenciais permanecem próximos dos benchmarks esperados. As taxas de reinternação (3,16%) e mortalidade (3,35%) sugerem que a qualidade clínica está preservada, reforçando a leitura de que o principal desafio está na organização dos processos e não necessariamente na assistência prestada.

O Índice de Eficiência e Sustentabilidade foi desenvolvido para consolidar, em uma única métrica, diferentes dimensões da performance hospitalar, como tempo de permanência, altas no horário adequado, reinternações, mortalidade e faturamento. Parte da premissa de que a eficiência não pode ser analisada por indicadores isolados, mas pela forma como esses fatores se combinam na operação. A partir disso, organiza os dados de forma estruturada e permite uma leitura clara de onde estão os desvios e as oportunidades de melhoria. A utilização da TRI permite calibrar esses indicadores conforme sua relevância estatística, tornando possível comparar instituições com diferentes perfis assistenciais de forma mais ajustada à sua complexidade.
A aplicação do índice também evidenciou diferenças expressivas entre instituições, com variação de desempenho entre 69,43 e 46,63 pontos, além de disparidades relevantes entre especialidades médicas, com melhores resultados em áreas cirúrgicas eletivas e maior concentração de desafios em especialidades clínicas.
Para o médico, professor da Universidade Federal do Paraná (UFPR) e diretor de Inteligência Médica da 2iM, Luiz Fernando de Oliveira Ribas, um dos autores do estudo, os resultados ajudam a reposicionar o debate sobre eficiência no setor. “Os dados mostram que os hospitais, de forma geral, mantêm níveis adequados de qualidade assistencial, mas ainda operam com perdas importantes na dimensão operacional. Isso indica que o desafio atual não é apenas tratar melhor, mas organizar melhor o cuidado, com processos mais alinhados à realidade clínica e econômica”, afirma.
Segundo o pesquisador, a mensuração estruturada desses desvios permite uma leitura mais objetiva dos pontos de ineficiência, especialmente em um cenário em que a sustentabilidade financeira se torna central para a continuidade dos serviços. “Quando se traduzem essas perdas em indicadores claros, é possível identificar onde estão os gargalos e direcionar ações com maior precisão, seja na logística hospitalar, na gestão do tempo de permanência ou na aderência aos parâmetros clínicos”, diz.
Na base dessa construção está o trabalho conduzido por Luiz Fernando de Oliveira Ribas, médico, professor de Medicina da UFPR e diretor de Inteligência Médica da 2iM, em parceria com Ângelo Cabral, matemático e estatístico da 2iM. A análise se apoia em dados estruturados pelo sistema de Grupos de Diagnóstico Relacionados (DRG), amplamente utilizado na classificação de internações e definição de benchmarks assistenciais, combinados à aplicação da TRI para identificação de indicadores críticos e avaliação integrada do desempenho hospitalar.
Ribas finaliza afirmando que os resultados ajudam a reposicionar o debate sobre eficiência no setor e os dados mostram que os hospitais, de forma geral, mantêm níveis adequados de qualidade assistencial, mas ainda operam com perdas importantes na dimensão operacional. “O desafio atual não é apenas tratar melhor, mas organizar melhor o cuidado, com processos mais alinhados à realidade clínica e econômica”.

