No Brasil, o CEP ainda define as chances de cura do câncer infantojuvenil

No Dia Mundial de Combate ao Câncer (08/04), os dados da Estimativa 2026 do Instituto Nacional de Câncer (INCA) trazem um alerta contundente: o Brasil deverá registrar 7.560 novos casos de câncer em crianças e adolescentes por ano entre 2026 e 2028. Desse total, aproximadamente 3.960 casos ocorrerão em meninos (52,4%) e 3.600 em meninas (47,6%), representando um risco médio de 134,81 casos por milhão de crianças e adolescentes de 0 a 19 anos.

Embora represente cerca de 3% de todos os diagnósticos oncológicos em todo o mundo, o câncer infantojuvenil segue sendo a principal causa de morte por doença não acidental nessa faixa etária. E, segundo os dados do INCA, as chances de sobrevivência por aqui ainda dependem fortemente da região onde a criança nasce.

Enquanto a taxa média nacional de cura gira em torno de 64%, o Sul e o Sudeste já alcançam patamares próximos de 75% e 70%, respectivamente. No Norte, porém, a sobrevida não ultrapassa 50%, revelando um abismo persistente no acesso ao cuidado especializado.

“Essa diferença é inaceitável e reflete desigualdades que vão muito além do acesso geográfico. Enquanto em países desenvolvidos (Europa Ocidental, Canadá, EUA) as chances de cura superam 80%, temos regiões do Brasil onde metade das crianças com câncer não sobrevive. É um problema que exige urgência política e social”, afirma o oncopediatra Sidnei Epelman, diretor do Serviço de Oncologia Pediátrica do Santa Marcelina Saúde, e fundador e presidente da TUCCA (Associação para Crianças e Adolescentes com Câncer).

Mapa do risco expõe falhas no diagnóstico

Pela primeira vez, a estimativa do INCA apresenta com maior detalhe a distribuição espacial da incidência do câncer infantojuvenil no país, a partir do Projeto OncoBrasil. O levantamento mostra variações importantes entre estados, associadas principalmente à capacidade diagnóstica, à organização da rede de atenção oncológica pediátrica e à qualidade da informação.

Estados do Sul, como Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul, além de Pernambuco, Paraíba e São Paulo, aparecem com taxas mais elevadas, um indicativo de maior capacidade de identificar e registrar casos, enquanto outras regiões ainda convivem com subdiagnóstico.

Para Epelman, a diferença não está apenas na medicina disponível, mas em atrasos no diagnóstico, dificuldade de acesso a centros especializados, falta de exames moleculares e menor oferta de terapias modernas no sistema público. “Hoje já temos tecnologia para tratar pacientes e garantir níveis de resposta positiva idênticos aos padrões internacionais. O problema é que isso ainda não chega a todos. No Brasil, o CEP continua sendo um fator determinante para a sobrevivência”, afirma o especialista.

A percepção do oncopediatra é reforçada pela Organização Mundial da Saúde (OMS) estima que grande parte das mortes por câncer infantil em países de renda média poderia ser evitada apenas com diagnóstico oportuno e tratamento adequado.

Segundo o INCA, essas diferenças não significam necessariamente mais câncer nessas regiões, mas sim maior capacidade de detectar e registrar os casos, evidenciando que parte do Brasil ainda convive com subdiagnóstico:

  • O Sul tem as maiores taxas estimadas (173,35 por milhão)
  • Seguido pelas regiões Sudeste (145,11 por 1 milhão), Nordeste (26,53 por 1 milhão) e Centro-Oeste (118,54 por 1 milhão)
  • O Norte tem a menor taxa (96,88 por 1 milhão)
  • Na região Sul, o Paraná se destaca com 560 novos casos estimados e, no Sudeste, São Paulo estima 1.730 diagnósticos.

“Ter diagnóstico precoce é fundamental, mas é essencial lembrar que não basta diagnosticar cedo se a criança não tem acesso rápido a um centro capaz de fazer exames histológicos, moleculares, genéticos, de imagem e oferecer tratamento completo. Sem isso, a chance de cura também despenca”, pondera Epelman.

Tumores mais comuns e sinais de alerta

Na infância, predominam as leucemias e os tumores do sistema nervoso central, seguidos por linfomas, sarcomas de partes moles, neuroblastoma e retinoblastoma. Entre adolescentes, ganham peso os linfomas de Hodgkin e não Hodgkin, tumores de células germinativas e carcinomas.

Os sintomas iniciais costumam ser inespecíficos, o que dificulta o reconhecimento precoce:

  • Palidez, cansaço extremo, hematomas e sangramentos podem indicar leucemia
  • Ínguas persistentes acima de 3 cm (pescoço, virilha ou região supraclavicular) acendem alerta para linfomas
  • Dores de cabeça frequentes associadas a vômitos e alterações neurológicas podem sinalizar tumores cerebrais

“O câncer em crianças e adolescentes é completamente diferente daqueles em adultos. São tumores embrionários, de crescimento muito rápido, mas que, quando tratados adequadamente e no tempo certo, têm altíssimas chances de cura. O problema é que nem todas as crianças brasileiras têm acesso ao que é necessário”, explica Epelman.

Avanços científicos contrastam com gargalos de acesso

Nas últimas décadas, a oncologia pediátrica avançou de forma significativa. Imunoterapia, anticorpos monoclonais, terapias-alvo e CAR-T para tumores hematológicos já permitem índices de cura próximos de 80% em centros de excelência.

“Hoje conseguimos personalizar tratamentos com base no perfil genético do tumor, usando drogas mais eficazes e menos tóxicas. Quando aplicamos isso ao paciente certo, no momento certo, os resultados são excelentes”, afirma o fundador e presidente da TUCCA.

O desafio é garantir que essas inovações cheguem a todo o país. “A medicina de precisão ainda é privilégio de poucos. No SUS, faltam incorporação tecnológica, pesquisa clínica pediátrica e financiamento adequado. Crianças não podem depender do CEP para sobreviver”, reforça.

Outro entrave é o baixo interesse em estudos focados em tumores pediátricos, já que crianças representam pequena parcela dos pacientes oncológicos. “São doenças raras do ponto de vista geral da saúde e apenas uma pequena parcela dos pacientes oncológicos são crianças ou adolescentes. Por isso, o poder público precisa assumir protagonismo, incentivando mais ensaios clínicos no Brasil e atraindo interesse da indústria farmacêutica. Sem isso, continuaremos atrasados”, conclui Sidnei Epelman.

O que precisa mudar para o Brasil chegar a 80% de cura

Diagnóstico mais rápido: Capacitação da atenção primária para reconhecer sinais precoces e encaminhar imediatamente para centros especializados.

  • Rede oncológica pediátrica integrada: Menos fragmentação entre estados e garantia de vagas reguladas em hospitais habilitados.
  • Acesso a exames modernos: Ampliação de testes moleculares, genéticos e de imagem no SUS.
  • Incorporação de novas terapias: Imunoterapia, terapias-alvo e CAR-T ainda chegam lentamente ao sistema público.
  • Mais pesquisa clínica pediátrica: Incentivos governamentais para atrair ensaios clínicos e acelerar a chegada de novas drogas.

Dados Oficiais do INCA 2026–2028 | Câncer infanto-juvenil (0 a 19 anos)

Estimativa de novos casos anuais:

  • 7.560 casos por ano no Brasil
    – Meninos: 3.960 (52,4%)
    – Meninas: 3.600 (47,6%)
    – Risco médio nacional: 134,81 casos por milhão (exceto pele não melanoma)

Tipos mais incidentes na infância:

  • Leucemias
  • Tumores do sistema nervoso central
  • Linfomas
  • Sarcomas de partes moles
  • Neuroblastoma
  • Retinoblastoma

Entre adolescentes, ganham peso:

  • Linfomas de Hodgkin e não Hodgkin
  • Tumores de células germinativas
  • Carcinomas

(O INCA não divulga percentuais fechados por topografia para o grupo infanto-juvenil, apenas ranking por frequência.)


Diferenças regionais (taxas por 1 milhão – Projeto OncoBrasil / INCA):

Estados com maiores taxas:

  • Paraná – 183,59
  • Pernambuco – 172,36
  • Rio Grande do Sul – ~168,1
  • Santa Catarina – ~164,9
  • Paraíba – 159,61
  • São Paulo – 153,14

Faixas nacionais de incidência:

  • 148,39 – 183,59 (mais alta)
  • 123,18 – 148,38
  • 108,73 – 123,17
  • 63,50 – 108,72

Segundo o Instituto Nacional de Câncer, essas variações refletem principalmente:

  • capacidade de diagnóstico
  • organização da rede de atenção oncológica pediátrica
  • qualidade da informação
  • subdiagnóstico em parte do país, especialmente nas regiões Norte e Norte/Nordeste.

Panorama comparativo / sobrevida:

  • Média nacional de cura: ~64%
  • Sul e Sudeste: até 70%–75%
  • Norte: não ultrapassa 50%
  • Em países desenvolvidos, a sobrevida supera 80%.

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