Hospital de Base institui o primeiro Centro de Manutenção de Órgãos

O Hospital de Base (HB) de São José do Rio Preto (SP), pertencente ao maior complexo hospitalar do interior do Estado de São Paulo, instituiu o primeiro Centro de Manutenção de Órgãos do país. A nova unidade é viabilizada pela aquisição da máquina de perfusão hepática Liver Assist, aliada à infraestrutura avançada do centro cirúrgico e à expertise da equipe multidisciplinar da instituição.

Nesta primeira etapa, a tecnologia é utilizada em transplantes de fígado, e o projeto prevê ampliar também para transplantar rins.

O Hospital de Base de Rio Preto e o complexo hospital ao qual integra, o da Funfarme – Fundação Faculdade Regional de Medicina, são um dos maiores centros transplantadores do Brasil. Desde 1990, quando foi instituído o Cintrans – Centro Integrado de Transplantes de Órgãos e Tecidos, a Funfarme já realizou mais de 5.800 procedimentos de fígado, rins, pâncreas, coração, pulmão, medula óssea e córneas. Deste total, foram realizados 968 transplantes de fígado e 2.170 de rim.

Além da iniciativa pioneira no país da criação do Centro de Manutenção de Órgãos, o HB de Rio Preto torna-se também o primeiro hospital vinculado ao SUS a realizar um transplante utilizando a máquina de perfusão hepática Liver Assist, realizado neste último sábado (28 de março). Este projeto é totalmente financiado pela Funfarme e voltado aos pacientes do SUS.

A máquina de perfusão, desenvolvida pela empresa sueca XVivo, manteve em funcionamento durante 4h35 minutos o fígado do paciente, o analista de sistemas Rodolfo Aparecido Chicone, de 39 anos, morador de Araraquara. O paciente está estável, internado na UTI do Hospital de Base.

A exemplo de Rodolfo, a Funfarme quer beneficiar muitas outras pessoas que estão na fila de espera e pretende expandir o seu Centro de Manutenção de Órgãos, incorporando tecnologias semelhantes para recuperar rins.

“Nosso complexo hospitalar existe para proporcionar bem-estar e salvar vidas. A incorporação da máquina de perfusão hepática marca um novo capítulo na história de nossa instituição, ao unir a excelência de nossos profissionais a esta tecnologia de ponta, beneficiando diretamente milhares de pacientes que aguardam por um transplante de fígado no país”, afirma o médico nefrologista Horácio José Ramalho, diretor executivo da Funfarme – Fundação Faculdade Regional de Medicina, mantenedora do HB de Rio Preto.

“Há conquistas que representam mais do que inovação: representam maturidade institucional. Este avanço revela a capacidade da Famerp/Funfarme de integrar formação, pesquisa e assistência em alto nível, com impacto real na vida das pessoas”, declara o Prof. Doutor Helencar Ignácio, diretor geral da Famerp – Faculdade de Medicina de Rio Preto.

A aquisição da máquina Liver Assist é passo decisivo neste projeto do complexo hospitalar, salienta o diretor do Cintrans – Centro Integrado de Transplantes de Órgãos e Tecidos da Funfarme, o médico nefrologista Mario Abbud Filho. “Queremos sempre oferecer melhores desfechos clínicos aos pacientes, como os com doenças hepáticas graves neste primeiro momento, e aumentar ainda mais o número de transplantes, contribuindo para que o país reduza a fila de espera”, diz Mario Abbud.

“Poderemos salvar muito mais vidas. A máquina representa uma evolução significativa em relação ao método tradicional de preservação de órgãos em gelo”, comemora o cirurgião Renato Ferreira da Silva, chefe da Unidade de Transplante de Fígado/Intestino do Hospital de Base de Rio Preto e que liderou a equipe que operou Rodolfo.

O cirurgião explica as várias vantagens do procedimento feito com o auxílio da máquina em comparação ao convencional, em que o fígado é mantido em gelo, chamada perfusão estática. “Enquanto a técnica convencional no gelo limita o tempo de preservação do fígado entre 10 e 14 horas, a tecnologia permite estender esse período para até 24 horas, mantendo o órgão em condições fisiológicas muito mais próximas do ideal”,

Na prática, a máquina de perfusão Liver Assist mantém o fígado em funcionamento fora do corpo por meio da circulação contínua de uma solução oxigenada, controlando parâmetros essenciais como temperatura, fluxo e oxigenação. Esse ambiente permite não apenas preservar, mas também avaliar e até recuperar órgãos que, anteriormente, poderiam ser descartados.

Entre a captação do órgão, ocorrida também no centro cirúrgico do Hospital de Base de Rio Preto, e o término do transplante transcorreram quase 13 horas. O fígado permaneceu por 4h35 na máquina de perfusão até ser transplantado.

De acordo com Renato Silva, a inovação traz um novo patamar de segurança para os transplantes. “A perfusão em máquina nos dá a possibilidade de avaliar o órgão com muito mais precisão e acurácia para decidirmos quanto a sua viabilidade para ser transplantado. Isso reduz riscos, melhora os resultados e amplia significativamente o número de fígados que podem ser aproveitados”, afirma o cirurgião.

Outro benefício importante está na redução de complicações pós-transplante. No método tradicional, o fígado submetido ao resfriamento extremo pode sofrer maior estresse celular, desencadear processos inflamatórios e apresentar complicações biliares. Com a perfusão feita na máquina (chamada hipotérmica), estes riscos são minimizados, já que o órgão recebe oxigênio continuamente e permanece metabolicamente ativo.

Funfarme é referência nacional também em captação de órgãos e tecidos

O Centro de Manutenção de Órgãos vem se somar ao Cintrans e à Organização de Procura de Órgãos (OPO) do Hospital de Base de Rio Preto para consolidar ainda mais a Funfarme como referência nacional no país.

Instituída há 20 anos, a OPO do Hospital de Base de Rio Preto apresenta um dos melhores desempenhos do país na captação de órgãos. Em atuação conjunta com outros 23 hospitais da região noroeste paulista, a OPO capta 56 órgãos por milhão de pessoas (pmp) nas cidades sob a jurisdição do Departamento Regional de Saúde (DRS 15) e 32 órgãos pmp no DRS 2, ambos bem acima do que a média do Estado de São Paulo (22 pmp) e do Brasil (20 pmp).

Também se destaca o índice de aceitação das famílias. Das famílias consultadas sobre a doação de órgãos de seus entes falecidos pelos profissionais dos 24 hospitais, 65% delas dizem “sim”, enquanto no Estado de São Paulo este índice é de 60% e no Brasil, de 55%.

Desde sua criação, a OPO do Hospital de Base já capacitou mais de 700 profissionais de saúde nos mais de 140 municípios das regiões oeste e noroeste do Estado de São Paulo, consolidando-se como referência regional em educação e atendimento humanizado no processo de doação de órgãos.

São todos profissionais voluntários, cientes de sua responsabilidade e do quanto é importante acolher e cuidar dos familiares e amigos em momento tão doloroso enquanto explicam a importância de o ente querido tornar-se um doador e salvar vidas e beneficiar talvez outras dezenas de pessoas.

Segundo a ABTO (Associação Brasileira de Transplante de Órgãos), um único doador falecido pode beneficiar até 10 pessoas com órgãos (coração, 2 pulmões, fígado — que pode ser bipartido em 2 receptores, pâncreas e 2 rins). Além disso, a doação de tecidos (córneas, pele, ossos, válvulas cardíacas, tendões, cartilagens, vasos sanguíneos) pode beneficiar mais de 50 pessoas.

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