Lp (a): um novo marcador genético de risco cardiovascular
Durante décadas, o colesterol ruim (LDL) foi o principal vilão das doenças cardiovasculares, mas a ciência revelou recentemente outro inimigo silencioso: a lipoproteína(a), ou Lp(a). Esse composto, que circula no sangue de forma semelhante ao LDL — o chamado “colesterol ruim” —, tem características que o tornam ainda mais perigoso, especialmente por aumentar o risco de Infarto, Acidente Vascular Cerebral (AVC) e estenose da válvula aórtica, mesmo em pessoas com níveis normais de colesterol.
Diferentemente do colesterol comum, os níveis de Lp(a) são determinados quase exclusivamente por fatores genéticos. Isso significa que, se um dos pais possui o Lp(a) elevado, há grande chance de o filho também apresentar concentrações acima do normal. Estima-se que uma em cada cinco pessoas no mundo tenha níveis altos da substância — e muitas sequer sabem disso, já que o exame para detectar essa substância ainda não faz parte da rotina laboratorial padrão.
Estudos internacionais mostram que valores acima de 50 mg/dL (ou 125 nmol/L) estão associados a maior propensão a eventos cardiovasculares precoces, mesmo na ausência de outros fatores de risco, como hipertensão, diabetes ou tabagismo.
Semelhante ao LDL, mas com um diferencial crucial: o Lp(a) carrega uma proteína extra, chamada apolipoproteína(a). Essa molécula está relacionada a um efeito inflamatório e pró-coagulante, facilitando a formação de placas de gordura e de coágulos nas artérias. Na prática, isso significa que a Lp(a) atua em duas frentes perigosas — favorecendo a aterosclerose (endurecimento e estreitamento das artérias) e a trombose (obstrução do fluxo sanguíneo).
Embora ainda não exista um medicamento específico aprovado para reduzir os níveis de Lp(a), os parâmetros atualizados na mais recente Diretriz de Dislipidemias e Prevenção da Aterosclerose, publicada pela Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC) recomenda a dosagem do Lp(a) uma vez na vida para auxiliar na estratificação de risco e/ou manejo terapêutico.
Mesmo diante das evidências, a Lp(a) é um marcador subestimado tanto pela população quanto por parte da comunidade médica. Incorporar sua medição aos exames de rotina — especialmente em pacientes de alto risco — pode ser decisivo para identificar precocemente quem está mais vulnerável a eventos cardiovasculares graves.
Em um cenário em que as doenças do coração continuam sendo a principal causa de morte, provocando 400 mil óbitos por ano entre brasileiros, compreender e monitorar a Lp(a) é um passo essencial para uma medicina ainda mais preventiva e personalizada.
*Maria Fernanda Barca é endocrinologista especializada em obesidade, diabetes e tireoide.

