Emagrecedores em alta e o risco de repetir um erro antigo
Por Mara Machado
O crescimento recente das vendas de medicamentos para emagrecer no Brasil revela um fenômeno que merece atenção. Entre 2021 e 2025, o volume de unidades vendidas no varejo farmacêutico saltou de 4,1 milhões para 7,3 milhões — um avanço de 78,3% (IQVIA). Apenas em 2025, o mercado cresceu 39,1%. A explosão das chamadas “canetas emagrecedoras” mostra que a ciência avançou de forma significativa no tratamento da obesidade, condição que afeta mais de 25% dos adultos no país. O problema é imaginar que a solução seja simples.
A história da cirurgia bariátrica ajuda a entender esse risco. Introduzida no Brasil há mais de meio século, ela começou a se popularizar no início dos anos 2000 como uma alternativa eficaz para pacientes muito acima do peso. Naquele momento, o procedimento vinha acompanhado de algo fundamental: preparação e acompanhamento pós-operatório adequado. Pacientes recebiam orientação nutricional, psicológica e clínica por longos períodos antes da cirurgia. A perda de peso era entendida como consequência de uma transformação mais profunda no comportamento e nos hábitos de vida, associada ao procedimento cirúrgico.
Com o tempo, à medida que a cirurgia se tornou mais difundida, esse processo de preparação e acompanhamento perdeu rigor em muitos casos. O resultado apareceu rapidamente na literatura científica. Surgiram fenômenos como a chamada “transferência de compulsões”, quando a dependência alimentar migra para outras formas de comportamento, como consumo excessivo de álcool ou outras práticas de risco. A cirurgia alterava o corpo, mas não necessariamente a estrutura que sustentava o problema.
O entusiasmo atual com os novos medicamentos para emagrecer corre o risco de repetir essa simplificação. As terapias baseadas em agonistas de GLP-1 representam um avanço real da ciência. Elas ajudam a regular mecanismos metabólicos complexos e podem trazer benefícios importantes não apenas para pacientes com obesidade. Mas tratá-las como solução isolada ignora uma evidência conhecida: obesidade é um fenômeno sistêmico.
Nenhum medicamento é capaz de compensar uma arquitetura social que favorece permanentemente o ganho de peso. Vivemos em um ambiente dominado por alimentos ultraprocessados, jornadas de trabalho extensas, deslocamentos longos e cidades pouco amigáveis à atividade física. A decisão individual de emagrecer acontece dentro de um sistema que frequentemente trabalha na direção oposta.
É por isso que o debate sobre obesidade precisa ser reposicionado. Não se trata apenas de terapêutica. Trata-se de governança da saúde. Sistemas alimentares, planejamento urbano, políticas de prevenção, educação nutricional e acesso a acompanhamento clínico contínuo são elementos centrais de qualquer estratégia consistente de enfrentamento do problema.
As novas terapias para emagrecer podem, sim, representar uma ferramenta poderosa nesse processo. Mas apenas quando inseridas em uma lógica ampla de saúde sustentável — aquela que combina inovação científica, organização do sistema de saúde e transformação das condições sociais que produzem doença.
Sem essa visão sistêmica, corremos o risco de repetir um padrão conhecido na história da medicina: celebrar a tecnologia enquanto ignoramos a estrutura que continua produzindo o problema.
*Mara Machado é CEO do IQG.

