Atenção primária: futuro da saúde começa antes do diagnóstico

Por Guilherme Weigert

No Brasil, ainda tratamos saúde como sinônimo de hospital, exame e especialista. Esse modelo hospitalocêntrico, centrado na intervenção quando a doença já se manifestou, faz com que o cuidado chegue quase sempre tarde demais quando o problema está instalado, exige tratamentos mais complexos, onerosos e prolongados. O resultado é um sistema mais caro e menos eficiente para todos os envolvidos, pressionando operadoras e corporações com custos assistenciais crescentes e impactando diretamente o paciente, que enfrenta jornadas mais longas, invasivas e desgastantes. Porém, experiências de sistemas de saúde realmente sustentáveis ao redor do mundo mostram que o maior impacto acontece muito antes disso, na atenção primária.

A atenção primária é a porta de entrada mais estratégica para o cuidado em saúde. É nesse nível que não apenas diagnosticamos e tratamos, mas acompanhamos o paciente ao longo do tempo, com foco em prevenção, orientação contínua e identificação precoce de riscos. No Brasil, muitos pacientes deixam de buscar a atenção primária mesmo quando precisam, de acordo com a pesquisa “Mais Dados, Mais Saúde”, realizada pela Vital Strategies e Umane, mais de 60% relataram ter evitado atendimento médico por causa da superlotação, demora ou burocracia, o que empurra demandas para unidades de urgência e emergência sempre lotadas.

Além disso, estimativas apontam que uma parte expressiva das visitas aos serviços de emergência pode não ser urgente, refletindo justamente a falta de cuidado resolutivo na atenção primária, que quando bem estruturada, evita que condições simples evoluam para quadros complexos e reduz a procura desnecessária por prontos-atendimentos e hospitais. O efeito é direto, ou seja, menos fragmentação, mais acesso e um uso mais racional dos recursos. Quando falha, todo o sistema fica mais caro e menos eficiente para todos.

Então por que o Brasil ainda não avança como deveria? O principal desafio não é técnico, mas sim cultural. O brasileiro tem dificuldade de enxergar valor na prevenção. É como usar o cinto de segurança, todo mundo sabe que é importante, mas só passa a usar consistentemente quando sente o peso da multa ou de um acidente. Sem um gatilho imediato de dor, risco ou perda financeira, a tendência é adiar cuidados que parecem “não urgentes”. Esse comportamento é um dos maiores obstáculos para a escalabilidade da atenção primária.

Também insistimos em concentrar recursos onde o problema já está consolidado, atuando quase sempre sobre populações de alto risco ou já adoecidas. É necessário, sem dúvida, mas é insuficiente. Esse desenho revela um status quo que aceita o adoecimento como ponto de partida do sistema, quando o verdadeiro impacto acontece antes do diagnóstico, na camada de prevenção que alcança 100% da população. Não se trata de falta de profissionais qualificados ou de capacidade técnica, mas de um olhar ainda reativo sobre a saúde. A falta de escala é consequência direta desse modelo. Para mudá-lo, é preciso redesenhar o sistema como um todo, com soluções sustentáveis que usem tecnologia para orientar, acompanhar e coordenar o cuidado de forma contínua, integrada e presente no cotidiano das pessoas.

A saúde mental talvez seja o exemplo mais evidente dessa urgência. Em 2024, foram registrados mais de 440.000 afastamentos do trabalho por transtornos mentais e comportamentais no Brasil, o maior número da série histórica, com aumento de 67% em relação ao ano anterior. Esses números revelam um sistema que ainda reage quando o adoecimento já é profundo, para pessoas, empresas e operadoras, em vez de atuar mais precocemente.

São condições amplamente preveníveis, mas que exigem consciência sobre sintomas, hábitos e sinais iniciais, algo muito mais subjetivo do que um exame de sangue alterado. Sem educação em saúde, sem incentivo ao autocuidado e sem apoio contínuo, a busca por ajuda acontece apenas no limite, quando a pessoa já não consegue sustentar sua rotina pessoal ou profissional.

Sistemas que funcionam, como o NHS no Reino Unido, a Kaiser Permanente nos Estados Unidos e a Oak Street Health, têm algo em comum, eles tratam a atenção primária não como um serviço adicional, mas como alicerce do cuidado.

A Oak Street Health, por exemplo, opera mais de 160 centros em 21 estados americanos com um modelo inovador baseado em valor, não em volume. A organização assume o risco financeiro integral de seus pacientes e estrutura o atendimento em torno da qualidade, prevenção e coordenação contínua do cuidado, reduzindo internações evitáveis e melhorando desfechos clínicos.

Já a Kaiser Permanente alcançou, na última década, melhorias expressivas na qualidade assistencial, reduziu pela metade sua taxa de mortalidade hospitalar padronizada e diminuiu em mais de 80% os gargalos de pressão adquiridos em hospitais. Esses resultados são consequência de um sistema altamente integrado, com protocolos clínicos bem definidos, uso intensivo de dados e forte coordenação entre atenção primária e especialidades. O NHS, no Reino Unido, também estrutura seu sistema a partir da atenção primária, organizando o acesso pelo general practitioner (GP), priorizando prevenção, acompanhamento longitudinal e integração entre os níveis de cuidado.

Se queremos reduzir custos, precisamos impedir que as pessoas adoeçam de doenças evitáveis. Se queremos aumentar o acesso, precisamos oferecer orientação antes da crise. Se queremos melhorar a saúde mental, precisamos criar consciência antes do colapso emocional.

A verdadeira transformação da saúde não está em responder melhor às doenças, mas em antecipá-las. E isso só acontece quando a atenção primária deixa de ser um ideal e passa a ser a porta de entrada real do cuidado.


*Guilherme Weigert é CEO da Conexa.

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