Como a longevidade da mulher tem redesenhado o futuro da saúde

Por Loraine Burgard

Tenho acompanhado com entusiasmo e responsabilidade a mudança demográfica que está redesenhando o panorama do envelhecimento no Brasil e no mundo. As mulheres, em especial, estão no centro dessa transformação: vivendo mais tempo, mudando hábitos de vida e exigindo uma nova forma de cuidado que transcende o modelo tradicional de saúde.

Dados mais recentes do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) apontam que a expectativa de vida ao nascer no Brasil alcançou 76,6 anos em 2024. Ainda que esse seja um cálculo geral que inclui ambos os sexos, as mulheres continuam a viver mais do que os homens, com média estimada em cerca de 79,9 anos contra 73,3 anos dos homens.

Esse diferencial entre os sexos não é novo, mas o que o torna mais significativo é o fato de que mulheres que atingem os 60 anos hoje têm uma expectativa de vida adicional muito maior do que nas gerações anteriores. Em termos práticos, uma mulher de 60 anos tem hoje em média mais de duas décadas de vida pela frente, com potencial de manter autonomia e funcionalidade, especialmente se seus hábitos de vida forem saudáveis.

É aí que temos visto nascer um novo perfil de mulher madura, a que faz parte do grupo “Nolt:New Older Living Trend” (Nova Tendência de Viver a Maturidade). São mulheres maduras que rompem com os estereótipos tradicionais do envelhecimento e:

  • Investem em saúde preventiva: alimentação equilibrada, atividade física regular, gestão de sono e bem-estar emocional.
  • Buscam engajamento social e intelectual: cursos, viagens, voluntariado, hobbies e trabalho voluntário ou formal.
  • Aproveitam recursos tecnológicos para monitorar saúde e bem-estar: desde aplicativos fitness até consultas virtuais com especialistas.

Esse novo perfil de envelhecimento não é apenas uma descrição sociológica, ele tem implicações profundas para o ecossistema de saúde.

Maior longevidade funcional exige mais do sistema de saúde

Com a população envelhecendo e vivendo mais (com mulheres liderando essa tendência), o sistema de saúde será desafiado a:

  • Oferecer cuidados contínuos e personalizados: menopausa, monitoramento de condições crônicas, prevenção de quedas, suporte cognitivo e bem-estar emocional.
  • Expandir modelos de atenção remota e integrada: telemedicina, telemonitoramento de sinais vitais e plataformas digitais que conectam pacientes com redes de cuidado.
  • Estimular estratégias preventivas e comportamentais: educação em saúde, programas de atividade física e nutrição adaptados à maturidade.

Mulheres que chegam aos 60 com boa saúde e engajadas em autocuidado tendem a exigir mais serviços de saúde baseados em valor, isto é, que tragam melhores resultados de saúde com satisfação e eficiência.

Há uma tendência de que este grupo adote mais recursos de tecnologia para o cuidado com a saúde, como apps, dispositivos wearables, consultas remotas. Elas buscam acompanhamento contínuo e não só tratamento pontual de doenças e ainda valorizam a orientação preventiva com acompanhamento multidisciplinar.

Essa mudança cria uma oportunidade para os players do ecossistema: oferecer soluções que possam ir ao encontro destas tendências, com suporte remoto e um cuidado proativo que acompanhe a longevidade funcional.

Vivemos um momento em que a tecnologia evolui mais rápido do que as classificações etárias tradicionais. Hoje já podemos integrar dados pessoais, clínicos e comportamentais para antecipar riscos, apoiar decisões de saúde e promover bem-estar em qualquer idade. E isso é particularmente poderoso quando aplicado ao público “Nolt”: mulheres que não querem envelhecer apenas sobrevivendo, mas sim vivendo com funcionalidade, autonomia e qualidade.

Pessoalmente, me alegra participar desse movimento não apenas como profissional de saúde e empreendedora, mas também como parte desse grupo de mulheres que vive a maturidade com propósito, energia e expectativa de uma vida significativa. O futuro da saúde é mais personalizado, contínuo e conectado e nós, enquanto sociedade, só temos a ganhar com isso.


*Loraine Burgard é co-founder da h.ai.

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