Quando a inovação não basta: o desafio do acesso a medicamentos

Por Fernando Risso

O mercado farmacêutico e de dispositivos médicos atravessa um momento de alta sofisticação técnica. Segundo a IQVIA, os gastos globais com medicamentos devem ultrapassar US$1,9 trilhão até 2027, impulsionados por terapias de alto custo e medicamentos especializados. No Brasil, dados da Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS) mostram crescimento contínuo das despesas assistenciais na Saúde Suplementar, pressionando Operadoras a revisarem critérios de incorporação e cobertura com cada vez mais rigor econômico.

Nesse cenário, não faltam produtos inovadores, evidências clínicas robustas ou interesse médico. Ainda assim, estratégias de acesso continuam falhando após o lançamento. O problema raramente está na qualidade da tecnologia, e sim na forma como o valor é traduzido para quem decide.

Ao longo da minha trajetória em life sciences, acompanhando lançamentos em diferentes segmentos, percebi um padrão recorrente: equipes investem fortemente na geração de evidência clínica, mas subestimam a necessidade de conectar esses desfechos ao impacto econômico concreto no sistema. O pagador não avalia apenas eficácia, ele avalia sustentabilidade.

A tradução da jornada do paciente em impacto financeiro real é o ponto crítico dessa equação. Um produto pode reduzir complicações, melhorar prognóstico ou oferecer mais conveniência terapêutica. Porém, se não houver clareza sobre como isso se converte em menos internações, menor uso de UTI ou redução de eventos de alto custo, a negociação tende a travar.

Nós conduzimos um projeto em que utilizamos um data lake com nove milhões de beneficiários da Saúde Suplementar para apoiar o lançamento de um dispositivo médico voltado ao controle de sangramento uterino. A análise revelou que apenas 4% dos partos apresentavam complicações, mas esses casos concentravam custo três vezes superior para as Operadoras. Ao demonstrar que o novo procedimento reduzia internações, diminuía o uso de bolsas de sangue e acelerava a recuperação, foi possível evidenciar uma redução de até 30% no custo desses eventos. O debate deixou de ser exclusivamente clínico e passou a incorporar impacto orçamentário mensurável.

Em outro caso, uma terapia oncológica inicialmente percebida como onerosa foi reavaliada a partir de microcusteio baseado em dados reais. A análise mostrou que, ao evitar eventos graves durante o tratamento, o produto gerava economia líquida projetada ao longo de cinco anos. Esse racional foi determinante para sustentar a negociação com o pagador.

Esses exemplos ilustram uma questão central: dados isolados não sustentam decisões. O que sustenta é a capacidade de responder com precisão a perguntas objetivas, como qual custo está sendo evitado, para qual perfil de paciente e em que horizonte temporal o impacto se materializa. Sem essa conversão estruturada, evidência clínica permanece dissociada da lógica econômica do sistema.

Outro ponto frequentemente negligenciado é que muitas estratégias de acesso são desenhadas a partir do momento em que o paciente se torna elegível. Pouco se analisa o que antecede a autorização e o que ocorre após a incorporação. A jornada real envolve etapas administrativas, fluxos de autorização, adesão ao tratamento e acompanhamento clínico. Cada uma delas influencia o resultado final e a percepção de valor. A pressão por sustentabilidade não deve ser interpretada como barreira, mas como mudança de parâmetro. Em um ambiente de restrição orçamentária crescente, a indústria que consegue estruturar um racional econômico consistente, baseado em dados assistenciais reais, amplia significativamente suas chances de êxito.

Estratégias de acesso bem-sucedidas começam antes do lançamento. Elas exigem leitura detalhada da jornada do paciente, simulação de impacto orçamentário aderente à realidade do pagador e clareza sobre onde, de fato, o produto altera a dinâmica de custo e cuidado. É nesse ponto que a inovação deixa de ser apenas tecnológica e passa a ser também estratégica.


*Fernando Risso é Head de Life Sciences da Sandbox Data for Health, Unidade de negócios do Grupo Funcional.

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