Brasileiros temem Alzheimer, mas subestimam importância do diagnóstico precoce
Uma pesquisa abrangente realizada pelo Datafolha em dezembro de 2025, com mais de dois mil entrevistados em todo o Brasil, revela um cenário complexo da percepção da doença de Alzheimer no país. O estudo aponta que, embora a doença gere grande preocupação, ainda há lacunas significativas no conhecimento sobre suas possibilidades de tratamento e a importância do diagnóstico no momento correto. No entanto, os resultados também indicam possíveis caminhos para fortalecer o conhecimento e o planejamento do cuidado, transformando apreensão em ação.
A pesquisa Datafolha destaca que a doença de Alzheimer é a segunda condição, dentre quatro doenças graves avaliadas na pesquisa, que as pessoas mais têm medo de um familiar receber o diagnóstico, perdendo apenas para o câncer e à frente de AIDS e Parkinson. Contudo, quando se questiona a importância do diagnóstico precoce, ocupa a terceira posição (35%), ficando atrás do câncer (94%) e AIDS (57%). Essa disparidade sugere uma necessidade urgente de maior conscientização sobre os benefícios da detecção no momento correto e dos benefícios clínicos das intervenções farmacológicas e não farmacológicas.
A complexidade da doença e a importância da intervenção precoce
A doença de Alzheimer é uma condição neurodegenerativa progressiva que afeta o sistema nervoso central, levando à morte de neurônios, especialmente em áreas cruciais para a linguagem, raciocínio e memória. Isso resulta em um comprometimento gradual das funções cognitivas, impactando a capacidade de lembrar, pensar, se comunicar e realizar atividades cotidianas.

A prevenção e o diagnóstico no momento certo são pilares essenciais no manejo da doença, porque os fatores de estilo de vida e os cuidados com a saúde mental desempenham um papel crucial. Estudos científicos recentes demonstram consistentemente que o isolamento social e a solidão, por exemplo, não são apenas fatores de risco para a mortalidade geral, mas também possuem uma correlação direta com a saúde cognitiva, associados a uma maior carga amiloide cortical em idosos, um marcador biológico da fisiopatologia da doença de Alzheimer.
“A saúde do nosso cérebro não deve ser um tabu, nem ser ignorada, mas sim uma parte integrante do nosso cuidado geral. A consulta com o neurologista deveria fazer parte da rotina, assim como fazemos o checkup cardiológico”, afirma Luiz André Magno, Diretor Médico Sênior da Lilly do Brasil. O Relatório da Comissão Lancet sobre Prevenção, Intervenção e Cuidados com a Demência destaca que intervenções direcionadas a múltiplos fatores de risco, como sedentarismo, obesidade e isolamento social, podem modificar a trajetória da doença. “Intervenções não farmacológicas, como manter-se socialmente ativo, praticar exercícios físicos e ter uma alimentação saudável, são poderosas ferramentas preventivas”, complementa Luiz André. Os primeiros sintomas da doença de Alzheimer, como lapsos de memória e dificuldade para planejar tarefas, frequentemente são confundidos com estresse ou envelhecimento normal, o que atrasa o reconhecimento e favorece a progressão da doença.
Desafios na busca por diagnóstico e a relevância de novas terapias
Apesar de 94% dos entrevistados afirmarem que procurariam um médico se um familiar ou amigo apresentasse queixas de perda de memória e dificuldade para se planejar e fazer tarefas, a realidade da busca por auxílio é mais complexa. Menos da metade (46%) já discutiu o tema da memória e raciocínio com um médico ou realizou algum teste cognitivo. Dentre esses, 11% o fizeram há mais de 5 anos, enquanto 54% nunca discutiram o tema ou fizeram exames.
Entre os 41% dos brasileiros que conhecem alguém com doença de Alzheimer, 60% admitem que houve uma demora significativa em procurar um especialista após os primeiros sintomas de confusão e perda de memória. Esse percentual é maior entre homens (66%), pessoas com ensino fundamental (70%) ou médio (64%), na classe DE (73%) e em moradores de cidades do interior (64%). Além disso, 88% concordam que as pessoas geralmente só procuram um médico depois de sintomas graves, como repetir as mesmas perguntas e não conseguir fazer tarefas básicas do dia a dia. A demora é ainda mais evidente: entre aqueles que convivem com a doença, 45% levaram mais de 30 dias para agendar a consulta médica, e outros 27% não souberam precisar o tempo.
Essa hesitação é, em parte, impulsionada pelo medo: 87% dos entrevistados concordam que o diagnóstico da doença de Alzheimer causa muito medo e ansiedade, e 60% acreditam que saber da doença pode atrapalhar a qualidade de vida. Entre quem já convive com a doença, 90% concordam que perceber os sintomas gera muito medo do diagnóstico, e 80% sentiram tristeza e ansiedade, sem saber o que fazer. No entanto, é importante ressaltar que 93% dos que convivem com a doença também concordam que o diagnóstico ajudou as pessoas próximas a se planejar e se adaptar aos cuidados. Além disso, 86% da população geral acreditam que receber um diagnóstico precoce de doença de Alzheimer ajudaria nas decisões sobre tratamento, cuidados e planejamento futuro.
Em contraste com a percepção popular de ineficácia, a ciência tem avançado. Luiz André Magno destaca que, além das abordagens não farmacológicas, “a ciência avança com novas terapias medicamentosas que, quando aplicadas no momento certo nas fases iniciais da doença, podem oferecer melhor qualidade de vida”.
Oportunidades para o futuro do cuidado
Os resultados da pesquisa Datafolha são um convite à ação. Eles sublinham a necessidade de campanhas de conscientização que não apenas informem sobre os sinais da doença de Alzheimer, mas que também desmistifiquem os tratamentos, destacando sua capacidade de gerenciar os sintomas, planejar o futuro e melhorar a qualidade de vida. Transformar o medo em conhecimento e a inação em proatividade é crucial para incentivar o diagnóstico precoce e o acesso oportuno a cuidados. A abordagem à longevidade saudável, conforme enfatizado pela OMS, passa por um entendimento abrangente dos fatores de risco e pela promoção de ambientes que favoreçam o bem-estar físico, mental e social. Isso inclui o acesso a informações claras, serviços de saúde de qualidade e uma cultura que valorize a conexão humana em todas as fases da vida.
Metodologia da Pesquisa “Percepções sobre o Alzheimer no Brasil”
Este estudo quantitativo foi realizado entre 01 e 02 de dezembro de 2025, por meio de 2.002 entrevistas pessoais em pontos de fluxo populacional em todo o Brasil. O objetivo foi mapear a percepção da população brasileira com 16 anos ou mais sobre a doença de Alzheimer, abrangendo desde o medo da doença até a compreensão sobre diagnóstico, tratamento e impacto na vida dos pacientes e suas famílias. O desenho amostral foi elaborado com base em informações do Censo IBGE 2022, e a amostra é representativa da população brasileira com 16 anos ou mais (160,1 milhões de habitantes). Para leitura do total da amostra, os dados foram ponderados de acordo com a distribuição da população brasileira, com ajuste nas variáveis região, tipo de município, sexo, idade, classe econômica e escolaridade, utilizando dados do Censo IBGE 2022 e da ABEP. A margem de erro máxima é de 2 pontos percentuais para mais ou para menos, com nível de confiança de 95%.

