Cooperativismo de crédito e a ampliação da liderança feminina
Por Silvana Parisotto Agostini
As barreiras enfrentadas pelas mulheres no sistema financeiro não surgiram nas filas das agências, mas na forma como o próprio sistema foi estruturado ao longo do tempo. Durante décadas, normas legais e padrões culturais limitaram o acesso das mulheres à propriedade, à gestão patrimonial e ao crédito. No Brasil, até 1962, mulheres casadas dependiam de autorização para administrar bens, o que retardou a consolidação da autonomia econômica.
Ainda que a legislação tenha evoluído, as estruturas de poder permaneceram concentradas. A presença feminina cresceu nos espaços operacionais, mas os principais ambientes de decisão seguiram majoritariamente masculinos. Esse descompasso ajuda a explicar por que o acesso aos serviços financeiros avançou mais rapidamente do que a participação efetiva das mulheres nas instâncias estratégicas do setor.
Superar esse cenário não significa apenas ampliar produtos ou campanhas direcionadas ao público feminino. Significa ampliar presença, influência e responsabilidade. Liderança feminina no sistema financeiro não é apenas uma pauta de representatividade. É uma questão de qualidade institucional, de pluralidade na análise de riscos, de sensibilidade na formulação de estratégias e de conexão mais profunda com a realidade das famílias e dos territórios.
Quando uma mulher ocupa um cargo estratégico, ela não ocupa apenas uma cadeira. Ela inaugura possibilidades. Torna-se referência. Abre caminhos. E, sobretudo, deixa um legado que ultrapassa sua trajetória individual. O verdadeiro avanço ocorre quando essa presença deixa de ser exceção e passa a integrar a cultura organizacional.
É nesse contexto que o cooperativismo de crédito se apresenta como um ambiente fértil para essa transformação. Nas cooperativas, a mulher não ocupa apenas o papel de cliente. Ela é associada, participa das assembleias, vota, acompanha resultados e pode integrar conselhos e comissões. Essa vivência amplia a compreensão sobre governança e fortalece o senso de corresponsabilidade.
Os números confirmam a relevância desse modelo. Segundo o Anuário do Cooperativismo Brasileiro 2025, o país registrou 25,8 milhões de cooperados e 4,3 mil cooperativas ativas em 2024, presentes em mais de 3,5 mil municípios. O setor respondeu por 578 mil empregos diretos, consolidando papel expressivo na economia nacional. Essa capilaridade cria oportunidades concretas para que mais mulheres assumam posições de liderança e influenciem decisões estratégicas.
No ambiente cooperativo, legado não é conceito abstrato. Ele se constrói na prática, na formação de novas lideranças, no incentivo à participação e na criação de espaços seguros para o desenvolvimento profissional. Uma mulher que assume responsabilidades em conselhos, comitês ou áreas técnicas não apenas fortalece a governança. Ela sinaliza para outras que aquele espaço também lhes pertence.
Preparar um legado significa preparar sucessoras. Significa compreender que a transformação institucional depende de continuidade. A liderança feminina se consolida quando deixa de ser isolada e passa a formar redes de apoio, mentoria e inspiração. É nesse movimento, em que uma avança e puxa outra, que o impacto se multiplica.
Enfrentar o isolamento bancário feminino, portanto, exige presença, preparo e compromisso com as próximas gerações. O cooperativismo, ao unir participação democrática, desenvolvimento humano e responsabilidade coletiva, demonstra que é possível alinhar solidez financeira e inclusão real.
Mais do que ocupar espaços, é preciso transformá-los. E essa transformação se sustenta quando cada conquista individual se converte em oportunidade coletiva. O legado que permanece é aquele que abre portas e garante que, no futuro, nenhuma mulher precise reivindicar o direito de participar das decisões que moldam sua própria autonomia econômica.
*Silvana Parisotto Agostini é Diretora de Sustentabilidade e Supervisão da Unicred do Brasil.

