O peso do jaleco e as consequências para as mulheres

Por Anna Paula Weinhardt

Há um tipo de exaustão que não nasce do excesso de trabalho, ela aparece pelo desespero de adequação. Esse cansaço surge quando o corpo aprende, ao longo dos anos, a adequar-se a símbolos que autorizam a presença mas que, em troca, exigem uma forma constante de pagamento.

O jaleco é um deles. Ele não é apenas uma ferramenta de trabalho, é um código. Uma autorização silenciosa que diz que a mulher pode estar ali, desde que seu corpo não atrapalhe a função.

Vestir o jaleco é transformar o corpo em instrumento. É neutralizar o gesto, modular a voz, conter a emoção. Não por escolha individual, mas porque o espaço exige. E porque, historicamente, o erro feminino sempre custou mais caro.

Como descreveu Michel Foucault, o poder moderno não precisa ser explícito. Ele organiza, normaliza e disciplina até que o próprio corpo passe a se vigiar. É assim que nasce um tipo de exaustão que não se resolve com descanso. Ela não vem apenas do cansaço físico, mas da ruptura entre ser e saber.

A mulher profissional cuida, decide e sustenta enquanto aprende, silenciosamente, a ignorar os sinais do próprio corpo – segue funcionando até que o organismo cobra o preço da ausência. Burnout, nesse contexto, não é fragilidade, é excesso de adaptação.

A Medicina do Estilo de Vida representa uma reflexão importante porque recoloca o corpo, seja de uma paciente ou de uma profissional, no centro do cuidado. Ela rompe com a ideia de que o saber precisa ser exercido a partir de um organismo neutro e incansável. A profissional não se coloca fora da equação, ela é definida pelos hábitos. Sono, alimentação, movimento, vínculos e sentido deixam de ser discurso e passam a ser prática coerente.

Isso não enfraquece a ciência, apenas a transforma.

E pouco se fala sobre o momento em que o símbolo cai. Quando o jaleco sai, muitas mulheres sentem um vazio estranho, uma dificuldade de descansar sem culpa e de existir fora da função de trabalho. Nesse contexto, o corpo foi treinado para performar, não para habitar. O “depois” do jaleco não passa pela descompressão, mas sim pela desorientação.

No fim, o jaleco pode ser um blazer, uma toga, um uniforme ou uma farda. O objeto autorizante é intercambiável, o que realmente importa é a lógica que permanece: a necessidade de símbolos para conceder à mulher uma liberdade condicionada.

No século XVIII, mulheres que circulavam pelas ruas de Paris usavam capas. Não para desaparecer, mas para tornar o corpo aceitável fora do espaço doméstico.

A capa dizia que ela podia estar ali, desde que não fosse ameaça. E ainda hoje, o jaleco, o blazer ou a toga dizem algo semelhante. Mudamos os tecidos e as instituições, mas a exigência de mediação simbólica permanece. Talvez a verdadeira emancipação não esteja em trocar de símbolo, mas em questionar o porquê ele ainda é necessário.


*Anna Paula Weinhardt é médica e cirurgiã vascular.

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