Aumento de 11% nos casos de câncer reforça alerta da SBRT sobre radioterapia sustentável

As novas estimativas do Instituto Nacional de Câncer (INCA) acendem um alerta importante para a capacidade de resposta do sistema de saúde brasileiro frente ao avanço do câncer. De acordo com o órgão, o triênio de 2026 a 2028 deverá registrar cerca de 781 mil novos casos de câncer por ano, um crescimento de 11% em relação ao triênio anterior (2023–2025), quando a estimativa era de aproximadamente 704 mil novos casos anuais.

Diante deste número, a Sociedade Brasileira de Radioterapia (SBRT) reforça a urgência de ampliar o acesso à radioterapia no Sistema Único de Saúde (SUS), mas alerta que qualquer expansão precisa estar vinculada a planejamento técnico, organização estratégica e, sobretudo, à sustentabilidade econômica do setor. Atualmente, os serviços de radioterapia no SUS operam, em média, com reembolso em torno de 50% do custo real dos tratamentos, cenário que limita a capacidade de manutenção, modernização e ampliação da oferta assistencial.

Levantamento realizado pela SBRT a partir de dados do DATASUS indica que, entre 2023 e 2025, foram realizados cerca de 470 mil procedimentos de radioterapia pelo SUS, número que reflete não apenas a capacidade instalada, mas também gargalos relevantes de acesso, especialmente nas etapas anteriores ao tratamento. Segundo a entidade, a incidência estimada de câncer não pode ser confundida com demanda real por radioterapia, uma vez que parte significativa dos pacientes sequer chega ao diagnóstico ou ao encaminhamento terapêutico, sobretudo no sistema público.

Historicamente, a SBRT vem alertando que a expansão da radioterapia não pode ser baseada apenas em projeções brutas de incidência. O relatório RT 2030, elaborado pela entidade, já demonstrava que, mesmo antes das estimativas mais recentes do INCA, o Brasil enfrentava um déficit estrutural de capacidade instalada. À época, o país contava com cerca de 409 equipamentos de radioterapia em operação no SUS, frente a uma necessidade mínima estimada em 513, o que representava uma lacuna da ordem de 20%. Esse cenário evidenciava que o sistema já não conseguia atender adequadamente a demanda real de pacientes que efetivamente chegavam ao tratamento.

Além disso, a entidade destaca que a utilização de parâmetros históricos, como a proporção de aproximadamente 75% dos pacientes oncológicos dependentes exclusivamente do SUS e a estimativa de que cerca de 60% dos pacientes necessitam de radioterapia em algum momento do tratamento, precisa ser analisada à luz das desigualdades de acesso ao diagnóstico. “O acesso à detecção precoce e à confirmação diagnóstica é significativamente mais amplo na saúde suplementar do que no SUS. Isso distorce qualquer projeção baseada exclusivamente em incidência, sem considerar os gargalos estruturais que impedem milhares de pacientes de chegarem ao tratamento”, avalia a SBRT.

Esse descompasso entre incidência estimada e demanda efetiva já foi observado em análises anteriores da entidade, que apontaram que cerca de 150 mil pacientes oncológicos não chegaram à radioterapia, possivelmente por ausência de diagnóstico ou dificuldades de acesso à rede assistencial. “Investir em infraestrutura para um paciente que não consegue acessar o sistema não resolve o problema estrutural. É preciso integrar políticas de diagnóstico, regulação, financiamento e capacidade instalada”, reforça a entidade.

Nos últimos meses, o Ministério da Saúde anunciou medidas para ampliar o acesso à radioterapia no SUS, incluindo ações de capacitação profissional, modernização tecnológica e incentivos à expansão de serviços. Em outubro do ano passado, foi anunciada a previsão de mais de R$ 156 milhões para custear despesas como transporte, alimentação e hospedagem de pacientes em tratamento, além de um investimento global estimado em R$ 907 milhões por ano, considerando novos modelos de pagamento, incentivos progressivos e mecanismos de mobilização do setor privado.

Na visão do presidente da SBRT, Wilson José de Almeida Jr., é importante reconhecer a mobilização recente do governo, mas ponderar seus limites. “A radioterapia é um pilar fundamental do tratamento oncológico e está presente em grande parte dos protocolos terapêuticos. Fortalecer essa área no SUS é essencial, mas isso precisa ser feito com critérios técnicos claros, previsibilidade e sustentabilidade. Modelos excessivamente complexos ou baseados apenas na entrega de equipamentos não necessariamente ampliam o acesso real”, afirma.

Segundo a entidade, experiências anteriores mostram que políticas públicas baseadas em métricas ultrapassadas ou em decisões que não seguem exclusivamente critérios técnicos tendem a gerar distorções. Desde o Projeto Expande, iniciado em 2002, passando pelas duas etapas do PER-SUS, houve ampliação do número de equipamentos no país, mas a distribuição não seguiu parâmetros objetivos de necessidade assistencial. O resultado foi a coexistência de regiões com oferta superior à demanda no SUS e outras que permanecem sem acesso adequado à radioterapia, especialmente nas regiões Norte e Centro-Oeste.

Publicações recentes do Ministério da Saúde também destinaram recursos adicionais a entidades filantrópicas, mas, segundo a SBRT, não contemplaram reajustes estruturais para a radioterapia. “A prioridade tem sido a substituição de equipamentos obsoletos, sem previsão de aumento significativo no valor dos reembolsos. O atual modelo cobre menos da metade do custo operacional, o que coloca em risco a sustentabilidade dos serviços no médio e longo prazo”, explica Almeida Jr.

Plano de expansão ainda enfrenta entraves estruturais

Criado para expandir e implantar novos serviços de radioterapia nos hospitais do SUS, o PER-SUS enfrenta dificuldades para alcançar seus objetivos. Após cerca de dez anos de execução, o programa entregou aproximadamente 50% das soluções previstas, sem conseguir resolver o principal gargalo do setor: a defasagem histórica no financiamento dos procedimentos.

“Sem enfrentar a questão do subfinanciamento, qualquer expansão tende a ser limitada ou insustentável. A radioterapia exige investimentos contínuos, equipe altamente especializada e manutenção tecnológica permanente”, avalia a SBRT.

Desigualdade regional persiste

O relatório RT 2030 também aponta importantes desigualdades regionais no acesso à radioterapia. Embora o Sudeste concentre os maiores déficits em números absolutos, as regiões Norte e Centro-Oeste apresentam déficits proporcionais mais elevados, refletindo falhas históricas na distribuição de recursos e infraestrutura.

“Ampliar o acesso à radioterapia passa necessariamente por corrigir distorções regionais, fortalecer a rede assistencial e adotar critérios técnicos transparentes. Sem isso, o aumento da incidência de câncer continuará pressionando um sistema que já opera no limite”, conclui o presidente da SBRT.

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