Neuropsiquiatria: formação especializada é desafio urgente
Por Inah Carolina Proença e Renato Luiz Marchetti
A saída do ator Henri Castelli, em janeiro, do BBB 26 após sofrer crises convulsivas, despertou a atenção da população sobre o assunto. De acordo com a produção do programa, o ator foi prontamente socorrido, passou por uma bateria de exames em um hospital, mas, por orientação médica, deixou o reality.
O caso despertou o interesse da sociedade em saber o que é uma crise convulsiva, mas nem só a população necessita de maiores informações sobre o tema. Médicos profissionais com interesse em neurologia e psiquiatria também precisam ser capacitados para atuar nas diversas áreas da Neuropsiquiatria como a epilepsia, encefalites, distúrbios do movimento, doenças funcionais, entre outras. Essa proposta já vem sendo trabalhada pelo Instituto de Psiquiatria (IPq) do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (HCFMUSP) com o apoio do HCX-FMUSP, centro educacional e de gestão do conhecimento.
A neuropsiquiatria é uma subespecialidade médica formal em diversos países. Seu objetivo é a investigação e o cuidado de patologias que têm peculiaridades da neurologia e da psiquiatria, ou seja, doenças em que sintomas neurológicos e psiquiátricos se associam, se confundem ou se sobrepõem, tornando necessária a atuação de um especialista com competências em ambas as áreas. Há um aumento claro da incidência de problemas psiquiátricos em serviços neurológicos e vice-versa. A segmentação associada ao tratamento especializado, muitas vezes acompanhada por estigmatização, cria obstáculos importantes ao atendimento destes pacientes.
Apesar de existir uma demanda reprimida por médicos neuropsiquiatras, há uma janela de oportunidade para a profissionalização e capacitação de neurologistas e psiquiatras que já vem crescendo nos últimos anos. A ampliação dessa mão de obra qualificada é importante tendo em vista que no SUS, por exemplo, há uma dificuldade muito grande do paciente ter acesso ao neurologista ou ao psiquiatra, tanto conjunta quanto separadamente. A presença de um neurologista que entende de psiquiatria, ou um psiquiatra que entende de neurologia, no SUS, por exemplo, facilitará não só o acesso do paciente como também um tratamento eficaz.
No Brasil ainda não existe uma formação especializada em neuropsiquiatria. A exceção fica por conta do IPq do HCFMUSP, em que se desenvolveu um verdadeiro ecossistema de saúde em neuropsiquiatria formado pelos serviços do PROJEPSI, VEEG e ENPQ. No PROJEPSI (Projeto de Epilepsia e Psiquiatria) se organizou um serviço de atendimento ambulatorial em neuropsiquiatria de epilepsia, crises não epilépticas psicogênicas e outras condições neuropsiquiátricas, matriciamento em neuropsiquiatria para unidades básicas de saúde e centros de atenção psicossocial da rede pública de saúde e formação em neuropsiquiatria para médicos psiquiatras residentes. No VEEEG (Unidade de videoeletroencefalografia) se realizam as investigações eletroclínicas e neuropsiquiátricas prolongadas de pacientes portadores de epilepsia refratária, crises não epilépticas psicogênicas e outros casos da fronteira entre epilepsia e psiquiatria. Na ENPQ (Enfermaria de Neuropsiquiatria), recentemente criada, se encontra o único serviço hospitalar de neuropsiquiatria da América do Sul, onde trabalha uma equipe multiprofissional com médicos psiquiatras e neurologistas trabalhando em associação estreita.
*Inah Carolina Proença é psiquiatra, mestre em psiquiatria pela FMUSP, coordenadora do ambulatório do PROJEPSI do IPq-HCFMUSP e vice coordenadora do Curso de Especialização em Neuropsiquiatria do HCX-FMUSP e Renato Luiz Marchetti é psiquiatra, doutor em psiquiatria pela FMUSP, chefe do PROJEPSI do IPq-HCFMUSP, chefe da ENPQ do IPq-HCFMUSP e coordenador do curso de Especialização em Neuropsiquiatria do HCX-FMUSP.

