Prevenção é a forma mais elegante e inteligente de cuidar da saúde

Por Gilberto Ururahy

Prevenção é a forma mais elegante e inteligente de cuidar da saúde. Essa frase acima não é um slogan bonito. É uma síntese do que a ciência vem mostrando de maneira insistente há pelo menos duas décadas.

Hoje, as doenças crônicas não transmissíveis – como infarto, AVC, diabetes tipo 2, alguns tipos de câncer e doença pulmonar crônica – respondem por mais de 70% das mortes no mundo, algo em torno de 41 milhões de óbitos por ano. Uma parte importante dessas mortes acontece antes dos 70 anos, em pessoas em plena fase produtiva.

Estimativas da Organização Mundial da Saúde (OMS) indicam que uma parcela relevante dos casos de câncer poderia ser evitada com mudanças de estilo de vida e detecção precoce. Em termos práticos, uma fatia considerável do sofrimento humano e do gasto em saúde não é destino, é consequência de escolhas e de um modelo de cuidado que chega tarde demais.

Mesmo assim, a arquitetura dos sistemas de saúde segue concentrada no tratamento. O foco é leito, UTI, medicamento caro, tecnologia para “apagar incêndio”. A prevenção continua sendo tratada como algo periférico, quando na prática é o centro da equação. Relatórios da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) mostram que, em média, os países destinam apenas alguns poucos pontos percentuais do orçamento de saúde à atenção preventiva, apesar de esse investimento vir crescendo nas últimas décadas.

Do ponto de vista da medicina preventiva, o contraste é nítido. A maior parte dos fatores que empurram as pessoas para essas doenças crônicas é modificável: tabagismo, alimentação de baixa qualidade, sedentarismo, consumo excessivo de álcool, sono ruim e estresse crônico.

Séries de estudos reunidos pela revista The Lancet mostram que padrões alimentares dominados por produtos industrializados prontos para consumo se associam a maior risco de obesidade, diabetes tipo 2, doenças cardiovasculares, alguns tipos de câncer, depressão e aumento da mortalidade. Ou seja, o problema não está só em um ingrediente isolado, e sim no conjunto da rotina alimentar e do grau de processamento do que chega ao prato.
Prevenção, porém, não se resume a “ter força de vontade” individual. Esse é um ponto importante. Há escolhas que dependem da pessoa e escolhas que dependem do ambiente em que ela vive. Falar de prevenção séria passa por três camadas.

A primeira é a camada pessoal. Envolve pontos que parecem óbvios, mas seguem negligenciados: não fumar, limitar o álcool, manter peso adequado, praticar atividade física regular, dormir em horários minimamente estáveis, reduzir a dependência de produtos prontos, cuidar da saúde mental e fazer check-ups proporcionais ao risco de cada um. É simples na teoria e difícil na prática, porque exige constância.

A segunda é a camada organizacional. Empresas que olham só para o custo imediato tendem a enxergar programas de promoção de saúde como “benefício extra”. Na prática, são investimentos em produtividade, redução de absenteísmo e menor rotatividade. Ambientes de trabalho tóxicos, jornadas incompatíveis com o descanso e metas inalcançáveis anulam qualquer palestra motivacional. Prevenção corporativa significa repensar cultura, liderança, carga de trabalho e acesso a apoio médico e psicológico qualificado.

A terceira é a camada de política pública. Rotulagem clara de alimentos, regulação de publicidade dirigida a crianças, planejamento urbano que favoreça deslocamentos a pé ou de bicicleta, ampliação de espaços públicos seguros, campanhas consistentes contra o tabagismo e o consumo abusivo de álcool, além de acesso real a serviços básicos de saúde, são escolhas de governo. Elas determinam se a opção saudável será um privilégio ou uma possibilidade concreta para a maioria.

A evidência científica vem mostrando, de diferentes maneiras, que mudar o eixo de “doença” para “prevenção” é racional em três dimensões.

Na dimensão humana, reduz sofrimento evitável e preserva anos de vida com autonomia. Quando um câncer é detectado em estágio inicial, quando a pressão alta é tratada antes do primeiro AVC, quando o diabetes é controlado antes de causar dano silencioso, não estamos falando de números de planilha, e sim da chance de alguém continuar trabalhando, cuidando da família, vivendo a própria rotina com independência.

Na dimensão econômica, alivia sistemas já sobrecarregados. Consultas, exames e intervenções preventivas custam menos do que internações prolongadas, cirurgias de alta complexidade e licenças médicas repetidas. Cada infarto evitado representa economia para o sistema de saúde e para as empresas, e representa, sobretudo, uma pessoa que não precisou passar por uma quase morte para rever o estilo de vida.

Na dimensão ética, recoloca a saúde no seu lugar original: o de preservar a vida, e não de prolongá-la a qualquer custo. Um sistema que só reage ao dano aceita, de forma implícita, que as pessoas adoeçam primeiro para depois merecer atenção. A lógica preventiva afirma o contrário: a vida vale o cuidado desde cedo.

Prevenção não é romantizar rotina perfeita. É aceitar que ninguém vive em laboratório, que haverá deslizes, períodos difíceis, situações fora de controle. A pergunta central passa a ser: qual é o padrão predominante da sua vida? Qual é a direção geral das suas escolhas? Pequenas decisões repetidas ao longo de anos constroem trajetórias muito diferentes de saúde.

O futuro da medicina passa por tecnologia de ponta, inteligência artificial aplicada a diagnóstico e terapias personalizadas. Tudo isso é bem-vindo. Mas nenhuma inovação substitui o básico bem feito: vacinar, se alimentar melhor, se mexer, dormir, manejar o estresse, buscar ajuda quando algo não vai bem.

Prevenção é a forma mais elegante e inteligente de cuidar da saúde porque respeita o tempo, protege o que ainda está íntegro e reduz a necessidade de intervenções dramáticas. É menos espetacular do que uma cirurgia complexa, rende menos manchetes do que um novo medicamento, e é ali, no dia a dia, que se decide como vamos envelhecer e com que qualidade vamos viver cada década.

Como médico de medicina preventiva, vejo o consultório se encher de histórias que poderiam ter sido diferentes se a conversa tivesse começado alguns anos antes. A boa notícia é que nunca é tarde para corrigir a rota. A má notícia é que, quanto mais adiamos, menor fica o espaço de manobra.


*Gilberto Ururahy é Diretor-médico especializado em medicina preventiva na Med-Rio Check-up.

Damos valor à sua privacidade

Nós e os nossos parceiros armazenamos ou acedemos a informações dos dispositivos, tais como cookies, e processamos dados pessoais, tais como identificadores exclusivos e informações padrão enviadas pelos dispositivos, para as finalidades descritas abaixo. Poderá clicar para consentir o processamento por nossa parte e pela parte dos nossos parceiros para tais finalidades. Em alternativa, poderá clicar para recusar o consentimento, ou aceder a informações mais pormenorizadas e alterar as suas preferências antes de dar consentimento. As suas preferências serão aplicadas apenas a este website.

Cookies estritamente necessários

Estes cookies são necessários para que o website funcione e não podem ser desligados nos nossos sistemas. Normalmente, eles só são configurados em resposta a ações levadas a cabo por si e que correspondem a uma solicitação de serviços, tais como definir as suas preferências de privacidade, iniciar sessão ou preencher formulários. Pode configurar o seu navegador para bloquear ou alertá-lo(a) sobre esses cookies, mas algumas partes do website não funcionarão. Estes cookies não armazenam qualquer informação pessoal identificável.

Cookies de desempenho

Estes cookies permitem-nos contar visitas e fontes de tráfego, para que possamos medir e melhorar o desempenho do nosso website. Eles ajudam-nos a saber quais são as páginas mais e menos populares e a ver como os visitantes se movimentam pelo website. Todas as informações recolhidas por estes cookies são agregadas e, por conseguinte, anónimas. Se não permitir estes cookies, não saberemos quando visitou o nosso site.

Cookies de funcionalidade

Estes cookies permitem que o site forneça uma funcionalidade e personalização melhoradas. Podem ser estabelecidos por nós ou por fornecedores externos cujos serviços adicionámos às nossas páginas. Se não permitir estes cookies algumas destas funcionalidades, ou mesmo todas, podem não atuar corretamente.

Cookies de publicidade

Estes cookies podem ser estabelecidos através do nosso site pelos nossos parceiros de publicidade. Podem ser usados por essas empresas para construir um perfil sobre os seus interesses e mostrar-lhe anúncios relevantes em outros websites. Eles não armazenam diretamente informações pessoais, mas são baseados na identificação exclusiva do seu navegador e dispositivo de internet. Se não permitir estes cookies, terá menos publicidade direcionada.

Visite as nossas páginas de Políticas de privacidade e Termos e condições.

Importante: A Medicina S/A usa cookies para personalizar conteúdo e anúncios, para melhorar sua experiência em nosso site. Ao continuar, você aceitará o uso. Veja nossa Política de Privacidade.