A escassez de especialistas deixou de ser um simples sinal de alerta

Por Antonio José Gonçalves

A escassez de médicos especialistas no Brasil deixou de ser um simples sinal de alerta e se consolidou como um problema estrutural grave, com impactos diretos sobre a qualidade do atendimento à população e a sustentabilidade do sistema de saúde.

No estado de São Paulo, os números ilustram com clareza essa distorção. O total de médicos generalistas — profissionais sem título de especialista ou residência médica — cresceu de forma acelerada na última década. Em 2015, eram 46,2 mil. Em 2025, esse contingente já se aproxima de 80 mil, representando cerca de 40% dos médicos em atividade no estado. Em 2000, essa proporção era de apenas 23%.

Para a Associação Paulista de Medicina (APM), esse cenário é consequência direta de anos de ausência de planejamento, políticas públicas mal conduzidas e da expansão desordenada dos cursos de Medicina, sem a contrapartida necessária na formação especializada.

Os efeitos desse desequilíbrio são sentidos diariamente pela população. Filas extensas para consultas e procedimentos especializados atrasam diagnósticos, comprometem tratamentos e aumentam a gravidade de doenças que poderiam ser controladas com intervenção adequada. O custo dessa falha recai sobre todo o sistema de saúde, mas principalmente sobre o paciente, que enfrenta um atendimento cada vez mais tardio, desigual e inseguro.

O equívoco central está na falsa premissa de que ampliar as vagas na graduação em Medicina seria suficiente para suprir a carência de especialistas. A formação especializada depende de residência médica, hospitais de ensino e infraestrutura adequada — elementos que não acompanharam a abertura acelerada de novos cursos. O resultado é um número crescente de médicos formados sem acesso à especialização, enquanto a demanda da população
permanece sem resposta.

Para agravar o cenário, entidades médicas passaram a disputar entre si a prerrogativa de certificar especialistas. Esse embate institucional tem gerado mais ruído do que soluções. Declarações genéricas e propostas simplificadoras desconsideram a complexidade da formação médica e desviam o foco do que realmente importa: a construção de soluções estruturais, baseadas em dados, planejamento e responsabilidade.

Em vez de contribuir para um debate técnico e centrado no interesse do paciente, essas disputas acabam confundindo a opinião pública e fragilizando ainda mais uma discussão que exige seriedade e visão de longo prazo. A falta de especialistas não será resolvida por discursos fáceis, tampouco por disputas corporativas.

Outro ponto crítico é a má distribuição desses profissionais pelo território nacional. Grandes centros urbanos concentram médicos altamente qualificados, enquanto regiões periféricas e cidades do interior seguem desassistidas. A ausência de incentivos, aliada à precarização das condições de trabalho e à desvalorização profissional, dificulta a fixação de especialistas onde eles são mais necessários.

Esse desequilíbrio também sobrecarrega os médicos generalistas, frequentemente pressionados a assumir atribuições além de sua formação, o que eleva o risco de falhas e compromete a segurança do atendimento. O sistema, assim, torna-se menos eficiente, mais caro e mais desigual.

Enfrentar essa crise exige planejamento responsável, ampliação criteriosa da residência médica, valorização do especialista e qualificação do debate público. Sem essas medidas, a escassez de especialistas continuará sendo um problema crônico e preocupante.


*Antonio José Gonçalves é Presidente da Associação Paulista de Medicina (APM) e Professor Titular da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo.

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