Por que o medo da anestesia ainda é maior que o medo da cirurgia

Por Jorge Luiz Andrade

É curioso perceber que, em pleno século XXI, com avanços tecnológicos, protocolos rígidos de segurança e equipes altamente especializadas, muitas pessoas ainda entram no centro cirúrgico mais assustadas com a anestesia do que com o procedimento em si. Como anestesiologista, escuto com frequência relatos de pacientes que dormem mal na véspera da cirurgia não pelo corte, pelo pós-operatório ou pela recuperação, mas pelo temor de não acordar, de sentir dor, de perder o controle ou de vivenciar algo irreversível durante a anestesia. Esse medo, embora compreensível, é desproporcional à realidade atual e precisa ser enfrentado com informação, diálogo e transparência.

Durante décadas, a anestesia foi cercada por histórias mal explicadas, experiências isoladas e mitos que atravessaram gerações. Muitas dessas narrativas nasceram em um tempo em que os recursos eram mais limitados e o acompanhamento menos preciso. Hoje, o cenário é outro. A anestesia moderna é uma especialidade altamente tecnológica, baseada em monitorização contínua, protocolos internacionais e decisões individualizadas. Cada paciente é avaliado de forma detalhada antes do procedimento, considerando histórico clínico, exames, tipo de cirurgia e até aspectos emocionais. Nada é feito de forma automática ou genérica.

Ainda assim, o anestesiologista costuma ser visto como uma figura secundária, alguém que aparece rapidamente antes da cirurgia e desaparece logo depois. Essa percepção contribui para o medo, porque o desconhecido tende a assustar mais. Quando o paciente não entende o que será feito, quais são os riscos reais e como eles são controlados, a imaginação preenche as lacunas com insegurança. O medo da anestesia, na maioria das vezes, não é medo do ato em si, mas medo da falta de informação.

É importante dizer de forma clara que todo procedimento médico envolve riscos, inclusive a anestesia. Negar isso seria desonesto. A diferença é que, hoje, esses riscos são amplamente estudados, previsíveis e, na imensa maioria das vezes, preveníveis. Complicações graves relacionadas exclusivamente à anestesia são raríssimas, especialmente quando comparadas aos riscos cotidianos que muitas pessoas assumem sem perceber, como dirigir um carro ou atravessar uma rua movimentada. A anestesia não é um salto no escuro, mas um processo cuidadosamente planejado e monitorado do início ao fim.

Outro ponto que alimenta o medo é a sensação de perda de controle. Dormir ou ficar sedado enquanto outra pessoa cuida do seu corpo exige confiança. Essa confiança, porém, não deve ser cega. Ela precisa ser construída na conversa pré-anestésica, no espaço para perguntas, na escuta das angústias e no esclarecimento honesto das dúvidas. Quando o paciente entende que há um profissional dedicado exclusivamente a cuidar das suas funções vitais, da dor e da estabilidade durante todo o procedimento, a anestesia deixa de ser uma ameaça invisível e passa a ser um elemento de proteção.

Mudar essa percepção é uma responsabilidade compartilhada. Cabe aos anestesiologistas se comunicarem melhor, se aproximarem mais dos pacientes e explicarem seu papel com clareza. Cabe também à sociedade abandonar mitos antigos e buscar informação de qualidade. O medo da cirurgia costuma estar ligado ao resultado e à recuperação. O medo da anestesia, por sua vez, muitas vezes nasce da desinformação. E o medo que nasce da desinformação pode e deve ser superado.

Quando entendida pelo que realmente é, a anestesia deixa de ser o vilão da história e assume seu lugar correto como aliada fundamental da medicina moderna. Ela não é o momento mais perigoso do procedimento, mas uma das etapas mais controladas e seguras. Enquanto o medo da anestesia continuar maior do que o medo da cirurgia, teremos falhado em comunicar o que fazemos. E isso, definitivamente, precisa mudar.


*Jorge Luiz Andrade é anestesiologista e vice-presidente da Unimed Nova Iguaçu.

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